[Conto] Uma hora de orvalho

Ilustração: Molly Fairhurst

Miranda soube que tinha chegado sua grande hora no momento em que acordou. De dentro da bolha, ela podia sentir uma espessura singular nos raios de sol.

Havia se preparado para isso durante tempos, um tempo há muito inominável, impossível de quantificar. Era ela entre bilhões de Mirandas mirando essa hora, a grande hora, já cantada – nas antigas – por poetas.

Acordou com uma energia inqualificável, talvez nunca sentida nem mesmo nos tempos ditos normais. Limpou seus arredores, desmarcou as páginas do livro sagrado, penteou os cabelos: queria começar do zero, depois da grande hora.

Depois do pêndulo agora móvel, invocando uma sensação única de antes da bolha, antes do caos, antes do nada.

Quando, finalmente, soaram as cinco horas da manhã do dia de Miranda, da hora de Miranda, daquela entre bilhões de Mirandas mirando sua própria hora, ela vestiu sua roupa de festa com o tecido da melhor linhagem, perfeito para máscaras e mandriões; impossível de conter o abismo de todas as miragens daquele momento que estava por vir.

Miranda tocou nas ruas de fora da bolha: estranho pisar nos paralelepípedos – ela nem sabia mais pronunciar qualquer palavra plurissilábica.

As palavras nos domínios da bolha têm uma esterilidade obscena: medo de dizê-las com toda sua carga de mistérios; receio de tangê-las em sua inútil beleza.

Sentia as pedras sob os pés, ela ainda sentia, a sensibilidade perplexa. As sandálias pouquíssimo sólidas ajudavam Miranda no avanço diante do misterioso amanhã. Ela pensou que música deveria estar tocando nessa hora, mas não lembrava mais de nada.

Um silêncio cortou as nuvens, e pássaros voaram plenos no dia branco do céu.

Quando, enfim, chegou no alto da ladeira mais súbita, as cordas de suas sandálias se romperam. Miranda parou no tempo. Um tempo recém-nascido é frágil demais. Não conseguiu continuar: o receio de pôr os pés no chão e seguir, foi maior.

A sua hora já estava a termo e Miranda teve que voltar. A hora do orvalho de Miranda voltará em outras eras, depois que todas as outras Mirandas mirarem seu próprio sol por sessenta minutos bem contados. Talvez nessa hora que virá, Miranda não tenha medo de voar.

Escritora, agente cultural, graduada em Letras e mestra em Estudos da Linguagem [ Ver todos os artigos ]

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