Miscelânea americana

Cena de “O amor custa caro”

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

O advogado salta à frente como o mediador de massas dos conflitos afetivos

Num primeiro momento achei que tinha entendido mal, para menos ou para mais. Uma das produtoras de um evento do qual participei numa instituição cultural norte-americana anunciava ao grupo que discutia detalhes da realização do evento, num momento de descontração na conversa, que ia se casar em breve, naquele mesmo lugar. A expressão que ela usou foi “my first wedding”, com seriedade e certo orgulho contido: é o meu primeiro casamento. Um dos sofrimentos de quem não conhece uma língua por dentro é o de se sentir perdendo, mais do que os significados, o peso e as conotações imprimidos às palavras. Já ouvi essa piada no Brasil, em que alguém que vai se casar anuncia, entre risadas, que o matrimônio é o primeiro de uma série. O chiste tanto realiza quanto exorciza as ameaças que cercam o tamanho do compromisso assumido. Mas não me parecia haver nada, ali, desse vezo humorístico e católico. Para além do frescor da novidade, ela falava com o pragmatismo tácito de um primeiro contrato.

O detalhe talvez tenha me assaltado a atenção porque, na véspera, eu tinha visto um dos filmes não recentes dos irmãos Cohen, a comédia romântico-sarcástica “O amor custa caro” (“Intolerable cruelty”). Nela, um advogado altamente bem-sucedido em tirar, para seus clientes, todas as vantagens possíveis dos divórcios (George Clooney) enfrenta uma alpinista matrimonial que está atrás de um trouxa para sacar fortuna dele através do jogo marcado de casamento e separação (Catherine Zeta-Jones). Entre as peripécias da intriga, o advogado galã é ora o oponente jurídico dela, ora o objeto de uma trama mais esperta em que ela o converte no próprio alvo de um enviesado golpe do baú de milhões de dólares. Como o filme parece resultar ele mesmo da parceria dos anárquicos cineastas com produtores comprometidos com o sucesso comercial, oscila entre a análise cruel e hilariante dos mecanismos do casamento como operação financeira e um aliciante final cor de rosa.

Não estou dizendo absolutamente que a moça da cena inicial que contei tinha objetivos parecidos com os da personagem de Zeta-Jones. A questão é que o filme só é possível porque tira partido das relações entre casamento e dinheiro no mundo norte-americano, como fundadas na habilidade prévia em formular contratos, apanágio do advogado descolado. A contratualização universal torna-se o motivo condutor da trama, regendo a sinfonia dos desejos. Rasgar um contrato faz figura de máxima declaração de amor (em vez do amarfanhado bilhete romântico). Mas pode ser também uma farsa parajurídica para fingir amor. O assunto aqui, elevado ao cúmulo, é a profunda introjeção do dispositivo do contrato como forma universal das relações intersubjetivas. O império do contrato sobre o princípio das uniões (“meu primeiro casamento”) e sobre o fim delas, quando intervêm os meandros jurídicos do divórcio, ganha a naturalidade de uma gramática das coisas, desenrolando-se como o decorrer inelutável de uma frase.

Vi confirmada a minha antropologia de algibeira um dia depois, viajando na linha vermelha do metrô, que atravessa Chicago rumo ao norte. Anúncios comuns, mas chamativos, entre outros, sobre as vantagens de estudar espanhol, a maneira mais direta de pedir comida a domicílio, ou de servir como objeto de uma pesquisa científica sobre distúrbios depressivos, ganhando algum dinheiro com isso, perguntavam: como vai o casamento, é chegado o momento de tomar uma providência, que tal cair na real? Procure Advogados Associados, altamente expertos etc. Nessa situação curiosa, o advogado salta à frente, antes do psicanalista ou do consultor sentimental, como o mediador de massas dos conflitos afetivos. Era quase possível ver gritando por trás do cartaz uma das cenas da comédia dos irmãos Cohen.

Um rapaz que conheci aqui, e que se tornou meu amigo, a quem contei as minhas ilações sobre o grau de entranhamento sintomático das relações contratuais entre pessoas nos Estados Unidos , findou por me contar que viveu uma separação traumática em que a pessoa de quem se separou propunha um acordo nos seguintes termos: tendo o casamento quatro níveis, o afetivo, o físico, o logístico e o de status, propunha uma anulação dos itens físico e afetivo, continuando a relação no plano logístico e de status. Para ele, que sofria a separação, a proposta era de uma “intolerável crueldade”, para retomar o título do filme. Digamos que mil e um mais mil e um casamentos adotam tacitamente a mesma solução. O que chama a atenção, aqui, é a forma emprestada e assumida das relações empresariais.

Um homem cujo nome não sei, e que conheci uma vez durante uma breve viagem de avião, no Brasil, me disse que só existem três profissões: médico, engenheiro e advogado. O médico trata das pessoas, o engenheiro, das coisas, e o advogado,das relações entre as pessoas e as coisas. Gosto de brincar com o esquema, que dá uma espécie de renovada verdade arquetípica àquelas três profissões que pareciam ser o único destino de homens com instrução superior, no passado. Mas é como se o engenheiro fosse hoje dominando os outros dois: a medicina como engenharia dos corpos, a advocacia como engenharia dos interesses, e as três reunidas no império das coisas.

Essas generalizações têm muito de quiméricas. Mas as suas evidências andaram me perseguindo, por esses dias, com luxo de detalhes.

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