missa in memoriam

Rafaela desapareceu. Vi seu corpo mal-formado ser seduzido por um Celta ano 2000 cor-de-prata no cruzamento da Bernardo Vieira com a Jaguarari às quatro da manhã de quinta-feira. Descobri seu nome porque gritaram. Nunca saberemos o que aconteceu a Rafaela àquela noite, mas é certo que ouviremos seu nome ecoar atrás dos muros, nas esquinas, propagado por pneus de automóveis, com frio, na chuva, padecendo de injustificável fome, perambulando quase invisível, com as mãos estendidas, no centro de uma avenida fantasma, atropelando o trânsito.

Comentários

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  1. nina rizzi 20 de agosto de 2011 12:03

    minha cabeça doía, os olhos ardiam, sem choro
    pela primeira vez ouvi blue suede shoes e não sorri
    não dancei os pés em reflexo, os ombros alquebrados

    a fumaça parada no ar trancado, ocre, azedo.

    um homem me oferecia café, como lembrança
    dos calos que a lavoura me deu na infância
    dizia de anjos, demônios e todas as coisas

    pairam sobre o universo, abscesso, tortura.

    pensava no telefone que não ligava, não tocava, não atendia
    e o outro homem que só sabia dizer “sou eu”, um erro
    minha cabeça dói, os olhos ardem, sem choro

    o mundo me adoece.

    [missa à mulher de nome trocado, nina rizzi]

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