O processo criativo de O Mistério do Verde Nasce – Parte 2

Os Diálogos

Podemos encontrar verdadeiros tratados sobre como fazê-los bem. Stephen King, na obra “Sobre a escrita”, revela um segredo para escrever diálogos realistas: fidelidade. As falas precisam corresponder ao temperamento dos personagens, a época e o lugar onde vivem.

Descrever um diálogo para Stephen, requer uma linguagem precisa e o motivo é que quase ninguém fala como um robô. Há sempre algo de uma interioridade sendo expressa: malemolência, ansiedade, ironia… uma infinidade de emoções que precisam ser percebidas no diálogo.

No livro, havia o jeito das crianças e dos mais velhos falarem na zona rural norte-rio-grandense nos idos dos anos 1920/30. Também havia o jeito dos ingleses se expressarem e eu precisei encontrar o tom certo porque eles eram representantes da classe média e suas falas precisavam denotar algo disso:

“eu precisei encontrar o tom certo porque eles [ingleses dos anos 1920/30] eram representantes da classe média e suas falas precisavam denotar algo disso

– Que massada! Nenhuma das irmãs Ashby foi hoje, comentou Martha irritada.

– Meus pés estão doendo! É um tormento passar tanto tempo calçada em botas apertadas assim! ¾  Choramingou Herriet.

– Não sei o que deu hoje no reverendo Birkin. Parecia que entraria pela tarde, falando do reino de Deus! ¾ Continuou Martha.

– Ele não faria isso ¾ respondeu o pai com um sorriso ¾ Padre Birkin não adiaria seu almoço, nem mesmo por um santo motivo!

– Samuel Martin, não diga uma coisa dessas, muito menos na frente das meninas! ¾ Mrs. Mary costumava censurar as observações irônicas do esposo. As filhas poderiam aprender certos modos.

– Não se preocupe, Herriet, o sapateiro virá pela semana. Martha, não reclame do tempo devotado a Deus, melhor estar na igreja do que reclamando da vida; e você, Emma, está ensimesmada outra vez. Um pouco de amabilidade com seus familiares faria bem a todos.

– Sim, mamãe, conseguiu responder, absorta.

Leia a primeira parte de “O processo criativo de O Mistério do Verde Nasce”

E havia o narrador contando a história sem pretender mostrar nada de si. O objetivo era esse, mas quando releio o texto, percebo que me traí, rs. Aqui e acolá, o narrador toma partido da história, especialmente para cuidar de Maria. Para enaltecê-la junto ao leitor:

…Havia um espelho oval preso à parede de um dos quartos. Sempre que se arrumava, Maria posicionava-se em frente a ele. Não conseguia chegar a uma conclusão sobre a figura refletida: era feia ou bonita? Sua avó, quando via alguém “mal-afeiçoado” afirmava que a pessoa era “fraca de feição”, mas ela nunca havia dito se este era o caso da neta. Por outro lado, nunca afirmara o contrário.

A compleição robusta, a pele trigueira, os cabelos ondulados, amarrados em uma trança única, o rosto infantil adornado por bochechas salientes que se avermelhavam com frequência, os olhos pretos, puxados, como os das ancestrais caboclas, tornavam Maria um modelo perfeito para as pinturas de Zelaya Sierra. Era bela, belíssima!…

Os Personagens

Um dos personagens, é claro, representa alguém especialíssimo. Maria é uma amálgama de vovó, minha irmã mais velha e a boneca Emília. É também, uma filha.  

Os leitores me perguntam se ela era daquele jeito mesmo. Essa é uma pergunta frequente sobre personagens inspirados em pessoas reais. A resposta, que geralmente desaponta é, “não!”.

A Maria de “O mistério do Verde Nasce”, que aliás teria outro nome não fosse a sugestão de Nelson Patriota, é a criação de uma autora. Não há como ser diferente, em se tratando de ficção, um romance de época, com leve toque memorialista.

Lembro que a irrequieta menininha de engenho foi a segunda personagem depois de Emma. Já foi pensada como a protagonista. Sem ela, a história não seria contada.

Em que pese o fascínio pela inglesa e seu mistério, é na menina de engenho norte-rio-grandense que eu desejei me concentrar, porque minha literatura tem essa marca: a de falar, de maneira privilegiada, dos potiguares.

Então essa menina que vive sua realidade de camponesa na década de 1920/30, com limitações sociais e geográficas e, ao mesmo tempo, com uma vida que para nós é idílica (com a natureza de um vale quase mágico à disposição) seria a personagem em torno do qual aconteceria toda a narrativa. Para ela, a avó contava histórias, para ela dona Emma, a filha da inglesa, revelou o mistério que ninguém mais parecia saber.

Emma é uma personagem envolta em mistério. O leitor quer saber como e por que uma inglesa vai para o vale do Ceará-Mirim no final do século XIX. Por que ela morreu aos vinte e seis anos e finalmente, por que ela não foi sepultada no cemitério Santa Águeda.

Escritora Ana Cláudia Trigueiro

O túmulo, outrora majestoso também é motivo de fascínio e a inscrição em inglês da lápide vinda de Liverpool remete a uma história de amor:

Sacred to the memory of Emma

The beloved wife of Marcello Barroca

Born November, 30th 1854

Died February, 7th 1881

Considerei um grande desafio dar voz a essa mulher. Uma jovem viúva, vivendo no século XIX na Inglaterra, de família nem tão privilegiada assim, que se apaixona por um estrangeiro, decide casar-se e ir embora para um continente distante, de clima tropical. O que pensava, o que sentia, quais eram seus medos, sonhos? No que acreditava, o que repudiava? O que sentiu, sendo ela anglicana, ao se deparar com uma família fervorosamente católica?

Fui elaborando a personalidade de Emma conforme ia respondendo sobre o que queria para a personagem. Que tipo de impressão eu desejava causar no leitor. (E aqui abro um parêntese para dizer que estou ciente de que o escritor não tem controle sobre isso. Ele tem apenas pretensões. O leitor interpretará, conforme seu repertório de vida: suas experiências,  valores, desejos, etc).

Feliza aparece na metade do livro e tem uma participação importante na trama. Mas ela não está ali apenas para ser descrita em sua condição de mulher negra escravizada. Há um antagonismo entre o catolicismo e o anglicanismo. Ampliei isso, acrescentando a instigante personagem que professava sua crença de origem africana. Feliza acabou se tornando a personagem preferida de muitos leitores e depois de Maria, também é a minha, rs.

Dona Cosma é o encontro com minha ancestralidade. Antes de conversar com vovó sobre sua infância essa trisavó era uma figura apagada para mim. Depois percebi que Cosma era aquela que contava para vovó, as histórias que ela e mamãe repetiram para as novas gerações. Percebi que era grandiosa como uma guardiã e perpetuadora da tradição oral, da cultura popular. Aí me empolguei e tasquei no livro três histórias que ela havia contado para minha avó. Uma delas eu tinha ouvido da boca da minha mãe. Foi maravilhosa essa experiência. Rica de significados, afetos e identificações.

O Cenário

O vale do Ceará-Mirim é um grande ambiente! Conseguir descrevê-lo à altura era minha obstinação. Para isso empreendi algumas viagens ao engenho, sendo sempre muito bem recebida por Nadja Dantas, umas das proprietárias. É um dos lugares mais bonitos que já vi e poderia ser um grande roteiro turístico do RN, não fosse o desinteresse do poder público pelo lugar.

Eu esperava que o leitor fizesse imagens mentais da longa estrada margeada pelas casas senhoriais hoje em ruínas. Desejava que a plantação fosse imaginada a partir da sua característica mais marcante:

O verde-cana predominava abaixo do firmamento azul-turquesa, mas aqui e ali, podia-se avistar círculos irregulares de um verde ainda mais intenso. A menina sabia que eram mangueiras, umburanas, guarabiras, jenipapeiras e cajazeiras; algumas robustas e fechadas, outras mais franzinas, entrecortadas pela luz do sol. O verde também circundava ao longe, o engenho Ilha Bela, com seus casarios e imensa chaminé; mas não parava ali, seguia ainda mais distante, até onde a vista alcançava. A casa da moenda e sua chaminé, do outro lado da estrada, estavam parcialmente ocultas pela grande figueira e pela castanhola plantadas à sua frente. Sempre que as via, Maria pensava no seu pequeno segredo…

Vou encerrar esta viajem pelas memórias da escrita, citando um último trecho:

No quintal havia três tamarineiras, plantadas a uma distância de dez metros uma da outra. Maria frequentemente subia na mais alta daquelas árvores para chupar os tamarindos azedinhos dos pés, enquanto observava a cativante paisagem do vale. Mas enquanto as rapaduras solviam dóceis na boca, os tamarindos necessitavam ser apreciados pouco a pouco, alternando apertos nos lábios; se não, era um azedume tão grande que punha a perder toda a delícia da prática degustativa. Tamarindos eram frutos voluntariosos, mas uma apreciadora entendida como Maria sabia extrair deles a acidez exata para transformar aquela calculada experiência em uma recordação para toda a vida.

Lembro exatamente do momento em que conversei com vovó e perguntei “como a senhora pode gostar de tamarindos? São tão azedos!” A resposta, eu vesti de prosa poética. Acabou sendo um dos trechos mais lidos por professores nas escolas.

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