O mito de paralisia cultural de Natal

Foto: Paulo Fuga

Peça Memórias de Quintal, da Bololô Cia Cênica, na “Boca Espaço de Teatros”

Dois títulos publicados na edição impressa do Novo Jornal deste domingo, “Natal, terra de sol e mar e … mais nada”, na capa, e “Natal, cidade sem cultura”, em página interna, alimentam o mito de paralisia cultural entre nós, deixando claro o desconhecimento do que realmente acontece culturalmente na cidade.

Como atenuante, se pode alegar que os títulos não tem nada a ver com o texto da matéria, que se refere ao fechamento de cinco importante equipamentos culturais públicos de Natal, os teatros Alberto Maranhão, Sandoval Wanderley, da Rampa, de Cultura Popular e a Biblioteca Câmara Cascudo.

A tentação de escrever um título impactante pesou mais do que se ater simplesmente ao que diz a reportagem. Isso é comum no jornalismo e resulta em título dizendo uma coisa e a matéria outra.

É inegável e indiscutível a importância desses teatros e museus. Ficamos mais pobres sem eles. Mas, a cidade hoje não depende deles. As coisas estão acontecendo, quase todos os dias.

Os pequenos teatros como a Casa da Ribeira, o Barracão dos Clowns e A Boca, estão ativos. Esse último mesmo está com uma ótima programação esse mês. A Livraria Nobel mantém há meses sua Quinta Cultural, os projetos Dança nas Dunas, aos sábado, e Som da Mata, aos domingos, atraem muita gente todos os finais de semana.

O teatro Riachuelo proporciona diversificada programação, o Mahalila Café e Livros sempre realiza saraus e eventos alternativos, o Sebo Vermelho, escritores e outras pequenas editoras seguem lançando livros quase toda semana, o jornal O Galo e a revista da Academia de Letras estão circulando, a Editora Caravelas, além de livros está editando também uma revista de literatura, publicações de grande relevância para o estado.

A Sesi Big Band se apresentou várias vezes em 2015. A produtora Jussara Figueiredo e a cantora Valéria Oliveira seguem com seus festivais internacionais de jazz, o Flipipa retornou, contamos novamente com o projeto Palco Giratório, do Sesc, O Dia do Samba, … Todos esses projetos, cito de cabeça e posso ter esquecido alguns, são iniciativas privadas ou com incentivo de lei de cultura.

No âmbito público destaco as apresentações da Orquestra Sinfônica, a intensa programação desenvolvida durante todo o ano pela Escola de Música da UFRN, o Natal em Natal, o Festival Literário de Natal (FLIN), a política de editais, que, apesar dos pesares, abriu espaço para cantores e grupos de teatro mostrar seus trabalhos, ganhamos no final do ano passado uma camerata de vozes.

Não posso concordar, então, que Natal seja uma cidade sem cultura. Aborrece-me quando ouço isso, sobretudo de quem nunca vejo em evento cultural nenhum.

Outro dia mesmo um amigo escritor quis saber sobre a formação intelectual/cultural dos jornalistas. Eu respondi que somente uma pesquisa poderia dar uma resposta sobre isso. Admiti, porém, que é raríssimo encontrar jornalista ou certos importantes intelectuais em evento cultural público na cidade. Citei público porque pode ser que ele esteja em casa lendo Graciliano,Clarice, Rosa, assistindo óperas ou os clássicos do cinema, desta forma estaria compensando essa ausência da vida cultural da cidade e perdoado pela falta.

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