Mitos e lavagem cerebral

As pessoas sentem uma dificuldade quase intransponível em sepultar ou rever os mitos que elas edificaram durante a vida. É como se fosse uma violência contra o momento mais belo da criação das crenças que é a mocidade. Se Che Guevara voltasse à vida e afirmasse ter cometidos erros práticos e exposto falsas teorias, não faltaria quem duvidasse da sinceridade de sua autocrítica. E uma das explicações seria a “lavagem cerebral”. Essa cretina desculpa que o poder também usa para justificar declarações antagônicas de aliados arrependidos. A recente entrevista de Geraldo Vandré, a uma rede de televisão que o próprio sempre abominou, tem gerado inúmeras análises e variadas interpretações. Que vão da psicanálise mais barata às suspeitas de um suplício merecedor de “compreensão”, “piedade” e “comiseração” .

Tudo falso. Vandré não foi torturado. Não foi preso. nem sofreu lavagem cerebral. Ele é, aos setenta e cinco anos, o mesmo Geraldo Pedroza de Araújo Dias. Genial, honesto e egocêntrico. Para Vandré, de cuja convivência e amizade privei, o único erro de Copérnico não foi descobrir que a terra girava em torno do sol, mas não declarar que o sol girava em torno de Vandré. Isso é um mal? Nem um mal nem um bem. Só um fato. Difícil são os arquitetos dos próprios mitos descobrirem que a edificação tem defeitos.

Geraldo Vandré é um dos maiores poetas do cancioneiro brasileiro. Um gênio da poesia cantada, sem ser um gênio musical. Uma figura humana completa de generosidade e dignidade pessoal. Incapaz de mentir para colher benefícios.  Se ele elogiar o inelogiável, pode acreditar que o faz por convicção e não por venda. Mas é também um profundo gozador com a mediocridade reinante. Pode acreditar que ele está novamente jogando ironia e alpiste aos pássaros da mídia. É o que penso.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

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