Moacy & Cascudo

Reflexão e reflexo: a vanguarda vai à tradição.

“Porque a formiga é a melhor amiga da cigarra”
(Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, “Cigarra”).

Moacy Cirne escreve sobre Literatura, Cinema e Quadrinhos desde os anos 60. Gerou textos, nessas áreas, que são importantes referências até hoje, além de ter animado, junto com outros companheiros potiguares, o Cine-clube Tirol em Natal, RN. Depois: Rio de Janeiro, Revista de cultura Vozes e Universidade Federal Fluminense, sem esquecer do Balaio vermelho sempre vivo. E também produz poesia de vanguarda a partir do final daquela década – tempo de tantas reivindicações transformadoras, dos hippies ao Maio de 1968, passando por redefinições dos socialismos: a revolução na próxima esquina que está tão longe.
Esse perfil de Cirne – espantar pela radicalidade – é muito conhecido. Um leitor imediatista pode pensar que ele não tem qualquer relação com tradições clássicas (de Homero a Haroldo de Campos), menos ainda com Câmara Cascudo e o folclore.
Moacy estuda, neste livro, desmandos editoriais em relação ao Dicionário do folclore brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo. Ele nos convida a garantir que um clássico seja acessível através do que seu autor escreveu, livre de deformações que revisores e comentaristas fizeram com a pretensão falsificadora de transmitir aquela voz original supostamente atualizada.
Todo texto clássico é objeto de discussão e transformações… por outros textos, assinados por novos autores – revisores e comentaristas com responsabilidade sobre o que escrevem. Isso não se confunde com o ato de fazer versões fantasmagóricas de textos alheios, sem assumir que são outras interpretações daquele universo. E, pior ainda, agir como se as versões fossem o trabalho que o criador primeiro um dia realizou.
Câmara Cascudo escreveu algumas obras-primas ao longo da vida: Vaqueiros e cantadores, Literatura oral no Brasil, Dicionário do folclore brasileiro… Obrigação básica de editoras (bem como de universidades, outras instituições de pesquisa e leitores) é garantir a preservação digna desse patrimônio tal qual seu autor o elaborou. Já imaginaram o Palácio da Alvorada colorido como um edifício pós-moderno, incluindo mármores rosados e turquesas? Já conceberam a fase azul de Picasso retocada porque surgiram pigmentos novos na indústria de tintas? E já tentaram ouvir os versos de Cecília Meireles povoados de gírias recentes, em nome de uma pretensa informalidade coloquial? Já supuseram Guimarães Rosa sem neologismos nem arcaísmos para hipoteticamente facilitar a leitura de seus textos?
A gravidade de mudanças, resumos e omissões (“edição desfigurada”, “barbaridades”), operadas nessa versão mais recente do Dicionário do folclore brasileiro, vai tão longe que Moacy Cirne estabelece a distinção, para efeitos comparativos e de correção, entre “em Cascudo” e “na Global”. Fala mesmo em “edição confiável do DFB”, referindo-se ao que veio antes da última editora.
Quando Cirne se dedica a ler, comparativamente, a edição da Global e outras anteriores do Dicionário do folclore brasileiro, ele respeita: em primeiro lugar, Câmara Cascudo; em seguida, os leitores de Câmara Cascudo (inclusive especialistas que até agora nada disseram sobre o que se passa); e, por fim, os editores de Câmara Cascudo. Apontar erros e deformações de edição – alguns muito graves, surf na maionese estragada – é um trabalho intelectual da mais alta importância que inclui, ainda, imensa generosidade em relação às editoras e a outros responsáveis pela preservação do patrimônio intelectual que Câmara Cascudo nos legou. E abre perspectivas para uma tarefa urgente: realizar a edição crítica do Dicionário do folclore brasileiro e, a rigor, de todo o corpus cascudeano.
Moacy Cirne sabe que a vanguarda virou, ela mesma, tradição de ruptura. E que algumas tradições, no mundo da mercadoria onívora, viraram críticas do mercado. Ir à tradição desfigurada é retornar a si mesmo: espelho crítico, rainha má.
Ele escreve sobre Cascudo, defendendo-o e preservando-o, porque a vanguarda é a melhor amiga da tradição: uma e outra se inventam no mundo que elas mesmas inventam.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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