‘Moacy Cirne vai deixar uma lacuna imensa”

Por Suely Nobre

Tácito, querido.

Um domingo triste esse! Eu que sou arredia às redes sociais e exposições pessoais, como que por impulso estou aqui a escrever sobre Moacy Cirne, talvez para compartilhar e aliviar essa tristeza que em mim é imensa. Dele trago lembranças preciosas. Certa vez, nos desencontramos no Rio de Janeiro. Conheci-o há muitos anos quando de um passeio em Niterói. E foi grande a surpresa e o contentamento ao descobri-lo Norte-rio-grandense, pelo que passei a acompanhar mais de perto todo o seu trabalho. Para bem conhecê-lo, dele adquiri e li boa parte de sua obra. Com as indicações preciosas, não foi diferente. Fez-me conhecer o movimento concretista. O Poema Processo. Li muito da obra dos irmãos Campos, li Pignatari, li Leminski e tantos outros escritores que haviam aderido àquele experimento. Não me fugiu sequer a Ilíada de Homero (por Haroldo), tudo para munir-me de ferramentas para um bom diálogo. Sabedor de minha adoração pela Sétima Arte, e sempre apostando nas suas indicações, em 2007 fui desfrutar da beleza da terra do Kikito e conhecer um pouco da história do seu festival de cinema, quando lhe trouxe uma estatueta de chocolate. Ainda para manter um prazeroso diálogo, tal a minha admiração, quase perdi um voo numa volta de Porto Alegre, somente para conferir outra indicação sua, à época, ganhador do prêmio de cinema do Rio de Janeiro, “O Céu de Suely” (2006) de Karim Aïnouz, pois descobrira poucas horas antes daquele voo, que o filme estava sendo exibido em sessão única na sala Unibanco Arteplex, no shopping Bourbon Country. Lembro também quando na véspera do réveillon de 2008, em passagem por Caicó, lhe trouxe de presente duas garrafas de Samanaú e, de volta ao Rio nunca foi possível lhe entregar o presente, fato que rendeu um singelo poema que inicia mais ou menos assim: “O que fazer da cachaça que guardei? E do ano bom que não lhe desejei?”, Ele não bebeu da cachaça, mas sorriu do poema. Ao conhecer alguns desses poemas, foram muitos os incentivos para que eu criasse uma relação mais intimista com o mundo das letras. Também foram construtivas as suas abalizadas e respeitáveis críticas pontuais. Um fato que reputo adorável é que Moacy fora um dos poucos conhecidos da minha fase adulta, que adotou o meu apelido de infância, por ter sido esse o nome com que me viu ser tratada quando nos conhecemos. Por brincadeira acresci a esse apelido de infância o sobrenome do meu pai e, gostava de vê-lo me chamar assim. Pesquisando em seus artigos mais antigos do Balaio, percebi que não restou arquivado, data anterior a 28 de janeiro de 2007. Porém, foi precisamente num dia 10 de janeiro de 2007, que ele publicou pela primeira vez um poema meu em seu Balaio Porreta – A hora é de partir – enviando diretamente a minha caixa postal um elogio que muito me honrou e me deu alegria. Sei desse dado com precisão porque salvei em meus documentos a página com a publicação. Com Moacy brincava de transformar alguns poemas em prosa, ou em crônica, dizia que a compreensão ficava melhor, além do que, lhe garantia não retirar a poesia do texto. Fiz assim com vários poemas. A primeira vez que coloquei num papel um sentimento profundo de homenagem ao poeta Moacy Cirne, ele emocionou-me com os seus comentários. Por razões bastante pessoais, esse manuscrito (escrevi num papel que pedi emprestado numa venda de cordel na cidade de Campina Grande/PB – Junho/2006) é um bem de valor sentimental bastante estimado, uma verdadeira relíquia – Regresso. Ele contribuiu de forma expressiva para o enriquecimento do meu conhecimento cultural em suas mais diversas vertentes. Pois é! Moacy Cirne vai deixar uma lacuna imensa em nosso berço cultural. Estava ele sempre convicto em suas exposições, por isso a sua irreverência, por isso a sua lealdade aos seus ideais! E é isso Tácito, cada um com sua saudade, cada um com suas lembranças. Deixo aqui neste respeitável espaço cultural, o meu profundo voto de pesar para toda a sua família.

BALAIO INCOMUN 1927

Desde 1986

Rio, 10 de janeiro de 2007

Poema/Processo, 40 anos

Contatos: balaio86@oi.com.br

A HORA É DE PARTIR

Poema de Mana Guimarães (RN)

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O último trago engasgo agora

A última dor derramo

O último espaço devasso

A última hora espanto

O último canto desconto

A última página reviro

O último abraço amargo

A última espera desisto

A última lágrima contenho

O último encanto desfaço

O último desejo consumo

A última frase silencio

O último adeus principia

A última esperança persiste

O último sentimento resiste

À última amizade confesso

Que no último dia dos meus dias

Vejo a face única da despedida.

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