Moacy Cirne vivo (1)

Por Dácio Galvão

É preciso ressaltar a iniciativa de Moacy Cirne no sentido de construir visibilidade no plano nacional para alguns autores locais. No livro de ensaios Vanguarda: um projeto semiológico (1975), publicado pela Editora Vozes, bem distribuído pelo país, abordando temas ligados ao experimentalismo artístico, à produção de quadrinhos brasileiros e à vanguarda (anti)literária, ele seleciona poetas norte-rio-grandenses e desenvolve sumularmente referências e relações apontadas para a poética vanguardística.

Nomes de maior ou menor densidade da cultura literária potiguar são referenciados no estudo: Antônio Pinto de Medeiros, José Gonçalves de Medeiros, Homero Homem, Miguel Cirilo, José Bezerra Gomes, Frederico Marcos, Marcos Silva, Anchieta Fernandes (esses três últimos ligados ao Poema-Processo). Os poetas locais citados, entre outros, foram postos num determinado grau de importância que, de alguma maneira, dá-lhes inserção no universo literário no qual se inscrevem Ferreira Gullar, Guimarães Rosa, João Cabral de Mello Neto, Oswald de Andrade, Augusto de Campos… Entende Moacy que as produções desses poetas locais “… merecem figurar em qualquer antologia do poemário brasileiro”. Uma antologia da invenção da poética brasileira na semântica poundiana não deveria prescindir de resultados desses aportes. Torna-se evidente o interesse no descentramento da produção analisada, constatada a peculiaridade de escolas literárias imediatamente anteriores. Determinados por fatores de origem histórica, de ordem política e econômica, certa região geográfica pode exercer imperialismo cultural interno, tentando colonizar também culturalmente as demais. Nesta ordem de fatores, ponto pacífico é a localização de abundante produção criativa e crítica no sul do país. No desdobrar da Poesia Concreta, o Poema-Processo e, em particular, as postulações de Moacy Cirne convergem para reagir contra esse preconceito provinciano.

A plêiade potiguar e nordestina (Paraíba, Pernambuco e Bahia), assim como de outros estados e regiões – Santa Catarina, Mato Grosso, Brasília, Minas Gerais, Rio de Janeiro – presentes no livro é relativamente numerosa, considerando o trajeto intelectual demarcado no ensaio: da Poesia Concreta ao Poema-Processo e algumas implicações remetidas ao modernismo iniciado em 1922. Se focarmos, no plano local e até o ano de 1975, a ausência da crítica literária não sistematizada, e por óbvia conseqüência não praticada, é pertinente, no mínimo, a pretensão de Cirne.

À exceção de Câmara Cascudo, conseguindo pela primeira vez, no Rio Grande do Norte, em 1921, exercitar a crítica literária nos ensaios do seu livro Alma Patrícia, e afora situações menos específicas da crítica propriamente literária, registradas nas antologias e resenhas de periódicos, observa-se longo intervalo sem sistematizações ou publicações de obras do gênero. Ou seja, seriam aproximadamente, quarenta anos de lacuna crítico-teórica sobre a produção local, observada pelo próprio Moacy Cirne ao relatar as origens do movimento do Poema-Processo por ele co- liderado no Rio Grande do Norte. Nesse sentido, é preciso dizer que Cirne não estava, juntamente a seus companheiros de articulação, estudando a literatura local na perspectiva diacrônica, visando o sistema literário brasileiro como o define CANDIDO (1975). Mas, às margens do subjetivismo reinante na província, e do respectivo desaparelhamento teórico, estava tentando, em bases nutridas nas ciências de linguagens, lançar luzes sobre a produção poemática referida.

Subjacente às teorizações de bases fundantes do movimento em nascedouro, o Poema-Processo, nas quais se exercitava com os poetas em âmbito local e nacional Anchieta Fernandes, Álvaro de Sá e Wlademir Dias-Pino estava a preocupação qualitativa em analisar a literalidade da produção potiguar. Assim, mesmo passível de provocar polêmicas e questionamentos, a incursão de Cirne remete a ponto importante: a produção crítica no plano local e, pode-se dizer, pós-cascudiana.

A sua colaboração acontece, sobretudo, no ato de selecionar poesias e poemas inaugurais. Procura na leitura sincrônica – conceituação linguísitica jakobsiana – da poética local a possibilidade, por qualificação, de inserção na história da literatura brasileira e internacional. Faz-se necessário ressaltar, neste último caso, a participação de alguns integrantes do Poema-Processo do Rio Grande do Norte em exposições e publicações estrangeiras: a revista portuguesa Hidra, ligada ao poeta e ensaísta luso de vanguarda Ernesto Manuel de Mello e Castro, publicaria o poema Decomposição do Nu, de Nei Leandro de Castro e Anchieta Fernandes participaria, em Buenos Aires, de uma mostra de poesia visual. Falves Silva contabiliza participações inúmeras no exterior para ficarmos restritos só a esses três exemplos.

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