Moacy Cirne Vivo (3)

Por Dácio Galvão 

As invenções poemáticas de sotaques dadaístas se localizam no “Poema para ser Queimado” de 1968. Diz Moacy, apresentando sua cria: “Um projeto em estado bruto (divulgado em termos de informação; em artigo de Nei Leandro de Castro, publicado no Correio da Manhã, RJ, no primeiro semestre de 1968): o ato de tocar fogo na bandeira americana, nas passeatas estudantis da época o poema se dava como tal pelas chamas da bandeira.” Tais labaredas destruidoras saídas do fogaréu da inflamável auriflama americana, ícone do bem sucedido capitalismo mundial, reclamam a hegemonia política e o apoio dos Estados Unidos da América ao regime autoritário implantado no Brasil desde o ano 1964 e de resto na América Latina. Proclama num conjunto de ações, o fim do monopólio político e cultural.

Teoricamente enunciado, o projeto não teria sido executado, mas “divulgado, em termos de informação”. O signo é material e simbólico. O pendão americano, a representação institucional, a significação do poder para inferir no inconsistente coletivo, está sendo protestado e se tentando consumado. As flamas do ardor e a plasticidade visual provocada por sopros de ventos podem se configurar em cores, formas e volumes, constituindo no plano da simbologia a derrocada do poder dominador.

O título Poema para ser Queimado desoculta duas situações: na primeira, o poema se realizando, entendendo-se, por isto, a inclusão do protagonizador ou poeta, pois a projeção, a gestualidade arquitetada implícita no poema sopra ares incendiários, performáticos e de happenings. Táticas de guerrilhas culturais. Afogueando o estandarte-objeto, deduz-se a inerente indução ideológica. Claríssima na exclusão norte-americana!

Na segunda, estampa-se, no poema se auto-consumindo, temperatura em alta combustão, expondo, no ato do atear fogo, a analogia metafórica da desejada vitória do bem (que pode ser significado por ideal socialista) sobre o mal (de onde pode advir a dominação capitalista) na dualidade implicante da guerra fria vivenciada no mundo de então. Aferindo atuações desenvolvidas por manifestantes, opondo-se ao regime político estabelecido no arbítrio, desde as manifestações subterrâneas mais extremas (guerra de guerrilhas urbanas e rurais), até os protestos mais pacíficos praticados nas ruas traduzidos nas passeatas e outros atos públicos, não restam dúvidas sobre a relação desse poema-processo com outras formas de movimentação de massas. Poema de rua, não de página.

Não é gratuita a foto-colagem aplicada na capa da Revista Ponto 2, porta-voz do movimento do Poema-Processo, mostrando detalhe da passeata inconformada diante da morte do estudante Edson Luís, assassinado no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, cidade onde Moacy Cirne residia e militava política e intelectualmente na cartilha do trotskista Partido Operário Comunista – POC.

O Poema para ser Queimado, tem esse viés panfletário, cabível em situações onde a arte acontece “dependendo de participação”, no sentido do engajamento político como pontuava o Manifesto PROPOSIÇÃO-67 publicado no suplemento cultural carioca “O Sol”. Era editado por Reynaldo Jardim, companheiro de Ferreira Gullar, no neoconcretismo, propugnando a ”poesia sem palavras” e “história em quadrinhos e humor sem legendas”: a base semiótica. Na primeira página do periódico “O Sol” lia-se em caixa alta: EXPOSIÇÃO NACIONAL, POEMA DE PROTESTO… Na segunda, texto de Cirne sobre “Poesia: Estrutura e Processo”.

No ano de 1987, foi publicada nova versão do Poema para ser Queimado, no zinepanfleto “Balaio” e republicado no livro “Continua na próxima”, 1994, p. 38. Feito poético que se processa e reprocessa continuamente. O poema não se pertence. Se compartilha e se multiplica.

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