As moças e seu jornal

Fac-simile de exemplar do Jornal das Moças

Impressiona-me algumas experiências do passado e, não raro, porque não as vejo no presente. Em 1926, portanto, há quase 100 anos, um grupo de jovens criou um jornal em Caicó voltado para temas de interesse do público feminino. O acontecimento foi pesquisado, dentre outros, por Marili Araújo Silva Batista para a UFRN e por Manoel Pereira da Rocha Neto, Isabel Cristine Machado de Carvalho e Monick Talita Inácio da Câmara para a UnP. As pesquisas sobre o “Jornal das Moças” estão publicadas na internet e nos contam a vanguarda da iniciativa dirigida por “Georgina Pires, gerenciado por Dolores Diniz, tendo o corpo redacional formado por Santinha Araújo, Maria Leonor Cavalcante, Julia Medeiros e Julinda Gurgel”.

O Jornal surgiu em fevereiro de 1926, no dia 07, e durou, segundo alguns, até 1932. A data não é consenso entre os pesquisadores, mas é lembrada pela maioria. Foi uma iniciativa extraordinária em um tempo ainda marcadamente masculino que demonstrou o pioneirismo da mulher caicoense. Além do corpo de gestoras e redatoras, outras moças colaboraram com o Jornal, fato também compartilhado por alguns homens da época, dentre os quais, Renato Dantas, Janúncio Bezerra da Nóbrega e José Gurgel de Araújo.

O noticioso das jovens caicoenses tinha tipografia própria, localizada no “sobrado de linhas arquitetônicas arrojadas do século XIX e era localizado à Praça da Liberdade” onde, atualmente está erguido o Edifício Dona Sinhá. As editorias cuidavam de literatura, humorismo e crítica, além de algumas notas sociais. O comércio local apoiava e o jornal era vendido, o que, ao final, resultou em lucro para as jovens que participaram do projeto.

O Jornal das Moças também era promotor de eventos, desde concursos de beleza e gentileza (para homens) até festivais literários. Também se tornou propagador das sessões de cinema que animavam a vida caicoense daquela época, além das notícias mais importantes como, por exemplo, a visita do Presidente Washington Luiz em 1926 a Caicó: “Ainda sentimos nós caicoenses a impressão agradável da presença do Dr. Washington Luiz em nossa terra. As poucas horas da permanência de S. Excia. entre nós foram bastante para deixar nítida e impagável na alma caicoense as lembranças do primeiro Presidente da República eleito e reconhecido que pisou o solo Seridoense”.

Sobre as pioneiras, mais alguns registros são devidos. Georgina Pires era filha do médico José da Silva Pires Ferreira e Serafina de Araújo Pires. Nasceu em Caicó no dia 13 de julho de 1902. Foi professora. Casou-se com Janúncio Bezerra da Nóbrega, outro ilustre caicoense que, ao lado de Olegário Vale, Diógenes Nóbrega e Manoel Dantas, fundou o famoso Jornal O Povo, fonte indispensável de pesquisa para entendermos o Caicó de ontem. Dolores Diniz, a gerente do Jornal das Moças, por sua vez, era filha de Sabino Policarpo Diniz e Mariana Benigna Vale. Caicoense nascida no dia 05 de outubro de 1901. Também exerceu o magistério como professora particular. Afastou-se do Jornal para casar com Aderson Soares, proprietário do famoso Hotel Avenida de Caicó. Santinha Araújo era filha de tradicionais ramos familiares que constru&iac ute;ram a história da cidade, sendo seus pais Joaquim Vicente Dias de Araújo e Maria Armelina Dantas.

Quanto a Julinda Gurgel de Azevedo, jovem também inserida no projeto como redatora, era filha de José Tomaz de Araújo e Maria Gurgel de Araújo Viana. Foi casada com o jucurutuense Yoyo Azevedo. Era irmã de José Gurgel de Araújo, também colaborador do Jornal das Moças e um dos benfeitores de Caicó em várias iniciativas na educação, civismo e voluntariado. Sobre Júlia Medeiros, uma das mais destacadas caicoenses de todos os tempos, já conversamos por aqui. Professora, oradora, vereadora, cidadã de atuação conhecida na vida caicoense, Júlia Augusta de Medeiros nasceu, na Fazenda Umari, no dia 28 de agosto de 1896, filha de Antonio Cesino de Medeiros e Ana Amélia de Medeiros. Em relação à Leonor Cavalcanti, conhecida por seus muitos alunos como “Dona Leonor”, os dados biogr&aacu te;ficos pesquisados indicam seu nascimento em Goianinha em 23 de março de 1897. Veio para Caicó ainda pequena e aqui viveu com a família Monteiro, de Eulâmpio Vidigal Monteiro e Anica L’eraistre. Foi professora, diretora Grupo Escolar Senador Guerra, fundadora do Externato São Luís em Caicó e participou da fundação do Colégio São Luiz em Natal. Dedicou-se inteiramente a educação e fez de sua vida um ministério a formar gerações.

Muitas outras mulheres devem ser lembradas ao longo deste março e durante todo o ano. São indispensáveis à história e às nossas vidas! Precisamos, contudo, olhando a experiência das que já partiram, que outras mais assumam o protagonismo que as pioneiras desempenharam e que o legado de honradez, educação, bons costumes e amor seja ampliado para que as novas gerações conheçam e se orgulhem do privilégio de ser seridoense.

Potiguar do Seridó. Iniciante no ofício de escrever sobre fatos e personalidades do Seridó amado. É advogado e membro do Instituto de Genealogia do Rio Grande do Norte. [ Ver todos os artigos ]

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