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É o fim do homem em si na modernidade líquida

Nunca a célebre frase de Dostoiévski esteve tão em voga: “Se Deus não existe, tudo é permitido”. É que nesses tempos de modernidade líquida apregoada por Zygmunt Bauman, a internet virou universo sem Deus, onde a raça pré-humana despeja sua essência hipócrita sem qualquer filtro. Tudo sem regras, o que remonta também à ideia do filósofo marxista Slavoj Zizek de que a democracia plena assusta a sociedade, sempre carente de normas para lhe guiar. Puro medo de, sem sanções penais ou divinas, deixar sua essência intolerante tomar conta de si.

Assim são as redes (anti)sociais: um universo anarquista onde tudo é permitido e onde a barbárie humana é despejada livremente. Há 50 anos, Lennon desistiria de “imaginar” um mundo sendo um só se presenciasse o resultado. E paradoxalmente esse mundo sem fronteiras geográficas está segmentado. Castas de classes, de ideologias; xiitas intolerantes; fundamentalistas do preconceito movidos mais pelo número de compartilhamentos do que de pensamentos, porque o importante é surfar na onda da maioria, como uma torcida organizada torpe.

E quem são as pessoas das “redes”? Bom, o Brasil é o país de maior índice de depressão no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde (ou da falta dela). O país da ordem e do progresso também é campeão em mortes de homossexuais – aqui se mata um a cada 28 horas, diz o Grupo Gay da Bahia (GGB). E tem a Maju, e tem a Thais Araújo e os 80% de mortes de negros no Brasil por racismo, segundo o Ipea. E tem a bandeira corrupta de coxinhas e petralhas. E tem as feministas e os machistas… Paradoxos reais, como a banheira do Gugu e o canal Arte 1.

Solidão

Mas a internet é, fundamentalmente, uma prática solitária, um local de solidão. Não à toa o crescimento vertiginoso de sites de relacionamentos, com centenas de milhões cadastrados no Tinder, Par Perfeito, etc. Não à toa o sexo ser o produto mais vendável da internet, seguido pela fotografia, que provavelmente se alimenta do sexo. E triste é reconhecer, como também entende Zygmunt Bauman, a irreversibilidade da conexão com essas pessoas intolerantes e solitárias, quer você sinta isso ou não. É fato: estamos todos no mesmo barco, pelo menos nesta Era.

Nesse mundo ciberneticamente interligado ainda resta crença na educação pelos livros, pela arte. Puro psicodelismo setentista. Os hippies de hoje compartilham posts de vida alternativa longe da urbe, no máximo. E nesse caldo de mundo virtual falta espaço à sopa de letrinhas e o tempero é insosso em nome da geração saúde. Detox é nome da moda para limpar as impurezas do corpo de alma suja. Enquanto isso, o planeta atinge o limite da suportabilidade ambiental. Estamos (somos) uns imundos poluidores! Essa é a irmandade dos homens, Lennon!

O fim do homem em si

E enquanto lunáticos esperam o novo iPad, a democracia plena começa a ruir sufocada pelo anarquismo desenfreado e sem maturidade para vivenciar um sistema sem regra, sem dogma, sem governo, “onde tudo é permitido”. E emerge daí o totalitarismo. Não um governo ditador, mas uma sociedade interligada e totalitária. Se havia o medo da bota do general, hoje temos nossa individualidade oprimida pela imensa massa de curtidas. Ou nossa privacidade vigiada por câmaras de vigilância e smartphones. É o fim do homem em si. Agora somos todos. E você é o que compartilha.

Então, cantemos: “Imagine all the people (Imagine todas as pessoas), sharing all the world (partilhando todo o mundo)”. Adeus, Lennon. Dream is over, camarada!

 

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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