Modernismo

Ilustração de Tarsila do Amaral para “Pau Brasil”, primeiro livro de poemas de Oswald de Andrade (1925)

Título original: A voz dos manifestos modernistas

Por Frederico Coelho
FOLHA DE SÃO PAULO

No livro “A Palavra Modernista – Vanguarda e Manifesto”, Pedro Duarte investiga os manifestos do movimento modernista como textos que articulam estética, filosofia e política. O autor dedica um capítulo ao enunciado “a alegria é a prova dos nove”, que contrasta com a ideia de “povo triste”, de Paulo Prado.

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A partir de uma leitura original, aberta e renovadora, Pedro Duarte e o seu livro “A Palavra Modernista – Vanguarda e Manifesto” [Casa da Palavra, 224 págs., R$ 39] contribuem efetivamente para o debate crítico acerca do modernismo brasileiro. Mais especificamente, o autor propõe uma análise acurada dos diversos usos da palavra e de suas múltiplas formas no âmbito do movimento de 1922.

Rico em possibilidades de leitura e desdobramentos para novos debates, o livro é parte do projeto “Modernismo + 90”, organizado pelo filósofo Eduardo Jardim e elaborado em 2012, em parceria com a editora Casa da Palavra. Trata-se de uma coleção dedicada a pensar novos pontos de vista, passados 90 anos da Semana de 22. Do total de nove volumes editados, “A Palavra Modernista” é o ultimo a ser lançado.

O livro, portanto, se insere em um momento de revisitação do tema, potencializado pela homenagem que Mário de Andrade receberá na próxima Flip e pelo relançamento de trabalhos fundamentais, como “Pagu Vida-Obra” [Companhia das Letras, 472 págs. R$ 59,50; e-book, R$ 39,50], dedicado à escritora, ativista, dramaturga e pensadora paulista Patrícia Galvão, organizado com rigor e sensibilidade por Augusto de Campos.

As chaves de análise sobre a elaboração de uma modernidade brasileira como espelho reluzente -ou como cópia defasada- da modernidade europeia precisam renovar os seus contornos para que essa “jovem tradição” não perca sua potência renovadora. Pois mesmo que nosso modernismo se insira em uma “tradição da ruptura” (termo consagrado pelo crítico mexicano Octavio Paz) por emular outros movimentos históricos de vanguarda e dar corpo à nossa sede pelo novo como vetor histórico, não é tão simples nos encaixarmos nessa afirmação.

ROMANTISMO

É a partir desses caminhos e descaminhos sobre o tema, aliás, que Pedro Duarte apresentará suas hipóteses e estruturará sua escrita. Professor do departamento de filosofia da PUC-Rio, o autor faz, nos primeiros capítulos, uma apresentação sucinta, porém esclarecedora, dos fundamentos críticos de sua leitura.

Em um primeiro movimento, Duarte aproxima nosso modernismo de uma de suas especialidades como pesquisador: o romantismo alemão. Sua estratégia visa mostrar que, assim como no período de Novalis, Schlegel ou Hölderlin, o modernismo brasileiro tinha que, simultaneamente, dar conta de sua atualização frente à modernidade europeia e propor, por meio da arte e do pensamento crítico, uma perspectiva específica nas suas limitações históricas e nos seus dilemas locais. Citando Pedro Duarte, “a brasilidade, se existisse, seria tanto descoberta quanto criada”.

Partindo desse mote de uma “brasilidade” como face estética e crítica do nosso modernismo, o autor propõe que pensemos o período, suas obras e seus participantes a partir dessa missão de duplo viés: a formação (e aí temos o romantismo alemão como um possível modelo comparativo) e a revolução (de acordo com os termos das vanguardas artísticas e políticas da época).

Ambos servem como motores para entendermos os aspectos estéticos e críticos da atuação do grupo de artistas e intelectuais de São Paulo e, posteriormente, do Brasil. Claro que, como o próprio autor aponta, o debate não se esgota neste par, já que há também a dimensão da investigação de cunho sociológico e antropológico (sobre o Brasil e sua sociedade, principalmente) como desdobramento incontornável da aposta modernista em reinventar um país tanto de fora para dentro (a influência cosmopolita internacional) quanto de dentro para fora (nossa contribuição para o mundo).

Após definir sua abordagem na articulação produtiva desses dois vetores -formação (de uma “identidade nacional”, de um campo moderno da arte, de um perfil profissional do intelectual no país etc.) e revolução (de costumes, do uso da língua, das formas artísticas etc.)-, o livro amplia sua proposta ao destacar que o modernismo, em seus discursos e práticas, nos apresenta uma situação única até então, ao articular em sua história a estética (obras), a política (polêmicas) e a filosofia (teorias críticas sobre a arte e o país).

Indo além, Pedro Duarte sugere que, no bojo do movimento, o espaço privilegiado em que todas essas dimensões funcionaram em conjunto foram os manifestos.

O caráter híbrido desses textos procura articular, como poucos, um conteúdo e uma forma -e, de preferência, ambos transgressores do cânone em voga. É um suporte perfeito para que a formação e a revolução se imponham simultaneamente. Difusão profética de novas ideias, retórica impositiva e messiânica, transformação radical do estabelecido e uma escrita de invenção -estes são os aspectos quase sempre presentes nos manifestos das vanguardas que inspiraram o modernismo de 22 e os seus desdobramentos.

O autor nos mostra, através de alguns dos principais manifestos do movimento, como a política, a estética e a filosofia pulsaram em toda sua potência. É nos manifestos -não só nos mais conhecidos “Pau Brasil” e “Antropófago”, de Oswald de Andrade mas em outros, publicados em revistas como “Klaxon”, “Verde”, “A Revista”, “Estética”- que temos as múltiplas dimensões da “Palavra Modernista” em questão. Aliás, para o autor, o manifesto é “a palavra modernista por excelência”.

O livro, portanto, sugere uma série de caminhos de investigação a partir da escrita modernista. Se o manifesto seria a forma por excelência dessa escrita, Pedro Duarte também ressalta o papel mais amplo e fecundo dos modernistas na abertura da língua e de seus usos, na análise de poemas e obras decisivas para nossa história da arte.

O autor também utiliza com destreza fontes centrais sobre o tema, como as correspondências de Mário de Andrade (sempre uma espécie de contrapeso privado do que ocorria em querelas públicas), os artigos em jornais da época, a vasta fortuna crítica disponível e as dissonâncias críticas que atravessam a história do movimento.

FRESCOR

A obra consegue apresentar o modernismo como um tema fresco e contemporâneo, tornando a leitura convidativa para o leigo e instigante para o especialista. Através das páginas de “A Palavra Modernista”, percorremos um período denso de fatos, nomes e obras, porém sem a sensação de que estamos perdendo o fio das hipóteses centrais propostas pelo autor. A alegria modernista materializa-se, no fim das contas, no entusiasmo de uma leitura e de uma escrita que cativa, provoca e faz pensar.

É para essa alegria, por fim, que o autor apresenta uma leitura original em seus últimos capítulos. Primeiro, situando o seu par negativo, a “tristeza” -essa sim tematizada pelo clássico do ensaísta (e um dos atores principais do Modernismo de 1922) Paulo Prado.

Em seu “Retrato do Brasil” (1928, contemporâneo, portanto, ao “Manifesto Antropófago” de Oswald de Andrade), Prado faz sua célebre síntese da formação do brasileiro através de quatro eixos interpretativos: a luxúria, a cobiça, o romantismo e a tristeza. Pedro Dutra, ao escavar a máxima “a alegria é a prova dos nove”, presente no “Manifesto Antropófago” de Oswald de Andrade e título do seu último (e talvez melhor) capítulo, nos mostra como ela não só contrasta a conclusão de Prado como encaminha também uma resposta enviesada à “Estética da Vida” (1921), texto referência de Graça Aranha.

Na obra, o conferencista de abertura da Semana de 22 proclama a alegria como um dos resultados da arte moderna brasileira. O termo, retirado por sua vez de Spinoza, indica um “bom encontro” e nos leva, segundo Duarte, a pensar nossa relação com o mundo. A antropofagia seria essa ferramenta que, ao nos fazer buscar o mundo como alimento e matriz inventiva do que é “brasileiro”, proporciona os bons encontros e nos abre para a vida estética, crítica e, por que não, delirante do mundo moderno.

Talvez, nos dias atuais, reivindicar a alegria e o delírio como possibilidades de pesquisa e pensamento sobre nossa história soe fora de tom. Mas se, como canta um dos compositores citados por Pedro Duarte em seu livro, “amanhã será um lindo dia, da mais louca alegria que se possa imaginar” (canção de Guilherme Arantes, famosa na voz de Caetano Veloso), não podemos esquecer que as promessas modernas (e modernistas) de futuro permanente deste país -e do mundo- sejam feitas também sob o signo dessa “louca alegria”.

Afinal, já é hora de os modernistas merecerem ter, entre os legados de suas obras e trajetórias, a exaltação crítica do nosso “estado permanente de invenção”.

 

FREDERICO COELHO, 40, é professor de literatura e artes cênicas da PUC-Rio e autor de, entre outros, “A Semana sem Fim” (Casa da Palavra).

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