Moisés e o monoteísmo – para Monteiro

Caro Monteiro estou relendo sei lá já por quantas vezes “Moisés e o monoteísmo” desse gigante do século XX e imbatível a meu ver séculos afora, chamado Sigmund Freud. A capacidade de manusear um denso material articulando-o com suas premissas psicológicas é qualquer coisa de espantoso neste ensaio memorável.

Lembrei de você, Monteiro, claro, porque Freud trata brilhantemente no referido ensaio, do Faraó egípcio da XVIII dinastia, Akhenaton ou Amenófis IV, que no dizer de Brestead foi “o primeiro individuo da história humana”. Freud, como Judeu, percebe e atribui a Akhenaton o real e verdadeiro instituidor do primeiro monoteísmo na face da terra e não aos judeus.

Partindo da premissa de que Moisés (Freud começa sua análise pelo nome Moisés que é de origem egípcia e não hebraica) era um egípcio, e de uma forma fenomenal tenta conduzir a idéia de que Moisés viveu como alto graduado na corte de Akhenaton e quando de sua morte – de Akhenaton (os egípcios não aceitaram a implantação de um deus único, no caso o Sol, e retornaram ao politeísmo após sua morte) deu prosseguimento à tentativa de impor o monoteísmo abortado, tomando os judeus como “o seu povo”. É fascinante. Essa escolha resultou segundo Freud na idéia de “um povo eleito”.

O ensaio, claro, é longo e genial. Haveria muito mais a falar. Freud irá perceber que o mérito de Akhenaton não foi apenas o de implatar com sua adoração ao Sol (no sentido simbólico e não material) uma nova religião e sim no que ele, Freud, chama de “o fator da exclusividade de um deus universal”. É incrível e basta lermos o hino que Akhenaton compôs em homenagem ao deus sol “Ó tu, único Deus ao lado de quem nenhum outro existe” e enxergar as semelhanças com o (de forma quase idêntica, portanto, copiado) mesmo hino que aparece nos Salmos dos hebreus, ou seja, no velho testamento, já retransformado e dirigido agora a Javé.

A grandeza e a genialidade de Freud são fascinante mas que hoje parece a cada dia mais e mais fora de moda. É uma pena. Sua coragem, ousadia e amor à verdade (nos dizeres precisos de Erick Fromm), continuam calando fundo para quem se dedica aos seus escritos. Ainda sobre o fato de Moisés ser um egípcio e não um judeu, Freud começa citando o fato de alguns estudiosos, incluindo Breasted, terem chegado muito próximo dessa verdade ao reconhecerem que de fato o nome Moises era egípcio.

A questão onde esbarraram foi no passo seguinte que recuaram talvez diante da empreitada grandiosa. Foi preciso um judeu ateu destemido para ousar o que nenhum teve a coragem.

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