Momentos Assim… (Parte I)

Por Ednar Andrade

A velha cerca, o gado e um verde de fartos cajueiros. Sebastiana fazia a trempe com pedras graúdas que catava no quintal, vindo dos cajueiros um cheiro de flores; um perfume inesquecível. Pitangueiras coloriam como roseiral, aquele cenário único e tão belo. Que perfume! Perfume que nunca esqueço. O cheiro das pitangas maduras, misturado às flores do cajueiro. Um aroma de sonhos, sonhos de criança. Sebastiana varria um cantinho na sombra e o reflexo das folhas formava a renda que forrava o chão. Ali eu brincava com bonecas, fazia vaquinhas com mangas verdes. As pernas eram palitos que catava no quintal. Pernas feitas dos próprios garranchos que caíam dos cajueiros. As maiores eram das vaquinhas; as menores dos bezerrinhos. Meu pomar de sonhos. Que infância linda! Ainda ouço o canto de Sebastiana que lavava vestidos coloridos, saias rodadas, anáguas branquinhas com renda, enquanto eu brincava. Meu Deus, como era lindo!

Um tempo onde ser criança não era diferente de fazer parte de um conto de fadas; um tempo onde as ruas ainda não tinham os postes iluminados com lâmpadas fluorescentes ou de mercúrio. Ouviam-se apenas os grilos à noite, o coaxar dos sapos, a ópera das pererecas. As ruas eram sem asfalto… Lembro-me de um barro vermelho, onde, vez por outra, os jipes – que eram os carros mais comuns da minha época – atolavam. Eles eram quase tratores e mesmo assim perdiam-se, atolavam naquele barro. Isso fazia o evento do dia. A meninada anunciava um ao outro o acontecimento e todos saíam para assistir, o que, para nós, era uma festa; para os adultos um sofrimento. A meninada torcia para que o carro atolasse, faziam elos com os dedos para que os carros afundassem cada vez mais… Isso não caracterizava maldade; era a única distração.

Outra lembrança linda de tantos contos de fada, porém com a conotação verdadeira, pois descrevo aqui apenas fatos reais, é ir cedinho ao curral de “seu João” pegar um leite quentinho. João Lopes era um senhor calado, simples, quase bizarro, chapéu escondendo os olhos, camisa da cor da calça, falava pouco, um tanto assustador, para a minha imaginação de criança. Mas ali eu me perdia, esquecia o leite, colocava a garrafa na calçada, ia correr atrás das vacas, observar os bezerros que mamavam; um cheiro de estrume no ar, aquilo era como perfume. O cheiro do feno; as cocheiras; o mugido dos touros; o eucalipto que formava um tapete… Eu sentava ao lado do Wilson, o moço que tirava o leite; sentava impaciente com uma certa dó da vaquinha, via o Wilson espremer as tetas da bichinha e a coitada mugia. Hoje não sei se era dor ou se era um mantra. Sei que de lá não saía leite sem emoção. Enquanto em casa a minha tia, talvez já impaciente, esperava sentada, o leite, porque ali eu me perdia. Aquilo tudo era meu mundo… Andar descalça, pisar no cocô quentinho da vaca, eu fazia por prazer… Lembro-me do mel de furo, uma substância tirada do melaço da cana, que as vacas comiam com prazer; os vaqueiros chamavam de torta. Eu daria tudo para lamber. Daquilo saía um cheiro… Era uma tentação, uma danação, um assédio, lamber, saber que sensação de prazer a vaca via naquilo. João Lopes dizia: “Vai pra casa Ednar. Entrega o leite a Anália e volta pra brincar”. Eu ia, então, chateada; voltar é que não podia. Sinto saudades.

Voltemos à Sebastiana.

Um cacimbão, coisa comum naquele tempo… O barulho da lata batendo contra a parede era uma canção. Eu me deleitava… Parava qualquer coisa, soltava as vaquinhas, as bonecas, para ver Celestino puxando a lata. Sentia uma inveja da lata, naquele mergulho, naquela água fresquinha e Sebastiana dizia: “Saiam daí, quem cai aí não volta” e eu ouvia, saía obediente e voltava às bonecas e agora Sebastiana já fazia o feijão naquele caldeirão naturalmente pintado pelas marcas da lenha que o fazia ser completamente negro, mas dali saía um cheiro maravilhoso de feijão. Sebastiana lavava roupa cantarolando e, volta e meia, tomava uma colherada de caldo. Eu, na minha inocência, olhava para Sebastiana e achava, sem saber dizer a palavra que a definia: ela era egoísta, pois ela não dividia o caldo. Eu que esperasse com paciência o banquete ficar pronto. Eram dias de manhãs douradas, lembro-me que era agosto, apenas porque o vento soprava com tanta força, as folhas ba lançavam frenéticas, aumentando o perfume vindo delas e a minha tia Anália dizia: “Mês de agosto, mês de ventos, das cobras, dos desgostos”. Grandes recordações. Recordações tão boas e tão felizes. Há coisas que não me lembro, não me lembro com exatidão; outras continuam tão vivas e surgem assim, de repente, numa manhã de agosto. Voltando à Sebastiana, que cantava e lavava roupa, não lembro-me do seu rosto, apenas das suas vestes. Sebastiana morava no sítio, mas não era minha parente, nem o sítio era meu. Era vizinho do meu. Como não lembro de tudo, não lembro o nome, agora, da menininha que me acompanhava, lembro-me apenas que era sobrinha de Sebastiana e que era muito mimada e eu, sempre muito levada, tinha as melhores idéias de como desobedecer. Sair de fininho do olhar de Sebastiana, por exemplo, e roubar na cerca uns frutinhos que chamam vulgarmente de melão-de-são-caetano; é uma ramagem que nasce naturalmente em qualquer cerca e dela nas ce um frutinho laranja que chamávamos de galinha. Sebastiana dizia: “Não comam isso”. Ora, ela bem que poderia dizer: “Comam á vontade”, pois talvez assim eu não comesse. Dizia ela que aquilo era veneno, mas eu queria ter a certeza deste efeito. Sendo assim, hoje concluo, que já comi muito veneno. Ali colhíamos os frutinhos, comíamos escondido de Sebastiana; a outra parte levávamos para a casa das bonecas. As bonecas não se importavam; só as formigas gostavam. Eu as achava ingratas; corríamos tanto risco, bronca de Sebastiana, levávamos galinhas tiradas da cerca e elas nem se importavam… hahahaha…. Quanta inocência! Que maravilha!

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