Momentos Assim… (Parte II)

Por Ednar Andrade

Lembro-me de uma vez em que fizemos o banquete, eu e a menininha, sobrinha de Sebastiana; poxa como fico triste de não lembrar o nome da menininha, minha única companheira… Mas faz tanto tempo que eu até me perdôo.

Sebastiana voltou da feira trazendo charque, toucinho, carne-de-sol, chuchu, cravo plantado num vaso e entre tantas novidades, trouxe uma panelinha de barro e Sebastiana falou: “Comprei uma panelinha pra vocês fazê cunzinhado”. Eu, espantada com a colocação de Sebastiana, não me furtei a perguntar: “O que é cunzinhado?”. Sebastiana riu… “Cunzinhado é uma brincadeira, onde quando a mãe mata a galinha, dá de presente às crianças, o coração, as tripinhas, a moela, as asinhas, para a menininha fazer a comidinha da casa de boneca. Da tripa faz os nozinhos, das moelas os pedacinhos e quando tudo tiver pronto, vocês fazem um almocinho”. Neste dia fui pra casa e acho que nem dormi. Pensei a noite inteirinha como seria, pela primeira vez, fazer, com a permissão de Sebastiana, uma travessura tão grande, como brincar com fogo, brincar com panelinha. Amanheceu, enfim. Cheguei bem mais cedo que de costume. Sebastiana fazia o café. De longe eu sentia o cheiro . Estávamos eu e a menina, ansiosas para começar. Sebastiana, eu e a menina começamos a brincar. Sebastiana foi ao cercado escolher uma galinha. Eu confesso, olhei pra coitada sentindo uma dó tão grande, não tinha outro jeito, a panela estava ali, a promessa de Sebastiana, a euforia, a noite mal dormida e para nós sobraria as tripinhas, as asinhas, os nozinhos. Sebastiana disse: “Fechem os olhos, saiam daqui meninas”. Eu, desobediente, disfarcei, fingi, saí de perto, mas mantive o olhar atento. Ela pegou a coitada, prendeu-a debaixo do pé, afiou a faca na pedra e fez um “carinho injusto” no pescoço da bichinha. Pensei: “Que coisa cruel, bem que poderia ser feijão”. Fazer o que? Cardápio escolhido por Sebastiana, panelinha nova, o cenário pronto, cantinho varrido, a mesinha feita com uma pedra coberta com um pano de prato; estava feita a tal da casinha. Voltemos à galinha. A coitada soltava um gemido (crááááá… crááááá) e silenciou. Eu, at enta, olhando, sem que Sebastiana visse, acompanhei o desfecho daquele gesto cruel, mas enfim, para obter tripinhas, coração, moela e asinhas, a penosa teve que se despedir. Sebastiana passou por nós, trazendo a coitada pendurada pelas pernas, o sangue desenhando o quintal de areia, deixava um rastro por onde Sebastiana caminhava. Chamei a menina: “Vamos ver de perto”… A menina tentou resistir: “Ela não nos quer lá; ela vai brigar”. Eu insisti: “Vamos, vamos, se brigar nós voltamos, se não, nós assistimos”. Para minha felicidade e espanto, Sebastiana não reclamou e eu vi, pela primeira vez, tudo que uma pobre galinha passa para virar banquete. Sebastiana arrancou-lhe as penas, quase uma a uma, e aos poucos foi surgindo uma pele lisinha e amarela, apontou a faca para o tórax da galinha e com o auxílio de um martelinho a abriu ao meio, de onde surgiram coisas brilhantes e coloridas: eram as vísceras, tripinha, coração, moelinha; material que serviri a para o banquete. No meio do colorido, avistei uma bolinha de verde-esmeralda e, sem controle, disse: “Esta bolinha eu quero”. Foi quando Sebastiana disse: “Não, isto é o fel, amarga muito, estragaria o cunzinhado”. Calei-me e pensei: “Vou ficar quieta, calada, antes que ela me ponha fora daqui”. Sebastiana prosseguiu no seu ritual macabro, cantando:

“Madrugada chegou, o sereno caiu Meu amor de cansaço Caiu nos meus braços Sorriu e dormiu Eu só queria que não amanhecesse o dia Que não chegasse a madrugada Eu só queria amor Amor e mais nada”.

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