Momentos Assim… (Parte III)

Por Ednar Andrade

Sebastiana achava tudo normal, enquanto eu a achava cruel e fria e tinha medo de uma pessoa que matava cantando. Enfim, pedaços para todos os lados: coxinhas, pezinhos, etc. E, numa tigela de porcelana verde, ali estava tripinhas e afins. Sacrifício feito, sonho quase concluído; vamos ao cozinhado.

Sebastiana reservou uma panela de barro a porção que seria o almoço dos adultos. Pegou as vísceras, os presentinhos que nos deu para o cozinhado, limpou, tratou, esvaziou as tripinhas, passou limão, vinagre, deixou num molho acre. Depois, não sei quanto tempo, lavou tudo, colocou todos os temperos. Fez ali no terreiro um pequeno fogo, menor que aquele que ela fazia na casa dela, pois se tratando da panelinha, tudo seria no diminutivo. Senti-me uma dona de casa. Fazíamos ali eu e Mariinha, nome que criei agora, pois não agüento mais citar uma pessoa sem nome, nosso primeiro cozinhado. Surgia daquela panelinha, um cheiro maravilhoso de galinha caipira, era um misto de pim enta-do-reino, alho e cebolinhas. Hummm… o manjar estava a caminho. Sebastiana, volta e meia, vinha até nós. Na verdade o que eu queria mesmo era mexer na panela, coisa que ela não deixava. Queria repetir o gesto dela, tomar o caldinho sem dividir, mas ela não deixava. Eu me socorria com um pensamento: “Quando estiver pronto não dou. Feijão dela; galinha minha”. Grande engano meu, Sebastiana foi quem mais comeu.

Enquanto a galinha cozia, eu e Mariinha, entretidas no quintal, varríamos a casinha, com uma vassoura feita de cacho de coqueiro (ou palha, se não me engano). Preparávamos a casa para a festa, a casa que já citei: um canto debaixo do cajueiro, varrido, aquele incenso natural vindo das flores que às vezes eu amassava só para sentir o cheiro. Coloquei sobre a mesinha um pratinho de ágata cheio de pitangas. Pitangas tão vermelhinhas e tão azedas. Volta e meia, tentava vigiar minha panela, mas Sebastiana dizia: “Voltem para o lugar, quando estiver pronto eu dou”. Não sei quanto tempo durou este martírio, mas o tão esperado aconteceu. Chegou Sebastiana com a panela quentinha, colocou sobre a mesa da nossa casinha. Do caldo fez um pirão que dividiu para as três: eu, Sebastiana e Mariinha. Um banquete inesquecível que hoje, por ser agosto, lembro com muito gosto. São momentos assim… De um tempo que vai longe, mas trago dentro de mim.

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