Monstros políticos

Por Fernando de Barros e Silva
FSP

Há uma certa histeria em curso. Ela tem origem no temor de que, sem Lula, o chamado radicalismo petista ganhe corpo e se aproprie do “Brasil brasileiro”.

A manifestação mais candente dessa fantasia conservadora estava na capa da revista “Veja” da semana passada. A representação da ameaça na figura daqueles monstrinhos tarados era de doer.

Juntou-se o que há de mais infantilizante e infantilizado na cultura de massas de hoje com uma espécie de apelação de segunda mão do imaginário caduco da Guerra Fria -um tipo de macarthismo tropical e tardio à moda spielberguiana.

Lula seria, segundo essa versão predominante do alarmismo, um agente moderador, uma garantia contra os radicais do PT. Mas há também uma versão segundo a qual Lula é, ele próprio, uma ameaça à democracia no país. E, embora contraditórias, as duas se misturam no mesmo caldo de cultura.Segundo o presidente da SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa), Alejandro Aguirre, o governo de Lula “não poderia ser chamado de democrático” e o próprio presidente seria um “falso democrata”.

Não há nenhuma dúvida de que muitas coisas no governo e nas atitudes de Lula são merecedoras de críticas. Mas confundi-lo com Hugo Chávez e pretender, como faz Aguirre, que Lula esteja entre os líderes “que se beneficiaram das instituições democráticas” e da “fé e do poder que o povo neles depositou para destruir as instituições democráticas” -isso parece absurdo.

Será que os conservadores não conseguem de fato diferenciar o projeto autocrático de Chávez da popularidade de Lula? E faz sentido repisar que a democracia por aqui está sob ameaça? Não houve entre nós, pelo contrário, um ganho democrático com a redução das desigualdades sociais, embora ela ainda seja tão grande?

Isso é obra de Lula, mas também do Real de FHC. Isso, porém, os monstrinhos do petismo e do antipetismo são incapazes de admitir.

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