A montagem de um universo complexo

Por Carol Bensimon
BLOG DA COMPANHIA

Um romance é um troço maluco. Há tanto que acontece antes de se escrever a primeira linha: diagramas, fotografias, canções, um diálogo na sua cabeça, a intenção de discutir certos temas, leitura de livros que você não tem certeza se irão ajudar, pedaços de memória, histórias roubadas de pessoas que estiveram na sua vida por vinte minutos, um lugar e como o lugar se parece quando a neblina toma conta dele e o que pode acontecer quando dois caras marcam de fazer uma transação ilegal numa estradinha enevoada dessas. Alguns podem argumentar que o inconsciente deveria tomar conta de tudo, inclusive do sentido e da ordem, e que planejar qualquer coisa é estúpido e limitador. Minha crença é de que isso é válido para alguns livros, geralmente do tipo que mergulha na cabeça de um personagem, privilegia a forma em detrimento da trama, e que portanto vê muito pouco do mundo exterior. Podem ser livros bons ou ruins, mas eu sinceramente acredito que essas escolhas têm um enorme potencial para esconder mediocridade e preguiça.

Abraçar uma forma mais “clássica” (não sei se esse é o termo adequado), por outro lado, exige a compreensão e a criação de um universo complexo: vários personagens e várias visões de mundo orquestradas, histórias pessoais ricas, talvez um contexto histórico e político, cenários detalhados que despertam sensações. Exige mais páginas, inclusive. Dá muito mais trabalho, mas trata-se de uma escolha que vai ao encontro do que John Gardner (autor do clássico A arte da ficção) chamou de “sonho ficcional expressivo e contínuo”. Adoro isso. “Sonho ficcional expressivo e contínuo” é o que faz o leitor se sentir dentro da história, mesmo que os personagens, situações e lugares representados estejam tão distantes de sua realidade pessoal. Envolvimento, em resumo, no sentido mais expressivo do termo.

Desconfio que o escritor que se propõe a tomar esse caminho — não o da exibição técnica, o da piscadela literária, o que mostra as engrenagens de propósito (todas essas opções válidas, claro) — está aceitando automaticamente o fim do mito da genialidade, esse anjo que fica em nosso ombro soprando frases maravilhosas e montando uma história sem que a gente precise se esforçar muito. Nunca é fácil abrir mão disso. Sentar a bunda no chão diante de um monte de fichas pautadas que representam a estrutura de um romance pode parecer tão “não artístico” em uma primeira olhada, mas me parece que a arte, nesse caso, está em conciliar um certo rigor com o mágico e o inexplicável. O romance precisa ser domado tanto quanto precisa ter o seu espaço para sair correndo.

Ele corre quando o escritor senta diante da folha ou da tela e o branco começa a ser preenchido com imagens e ações que ele não sabe ao certo de onde vêm e por que vêm, mas que provavelmente vão fazer sentido depois. É impressionante como se dão esses processos inconscientes. Quando eu decidi colocar a palavra “caubóis” no título do meu livro, eu não fazia muita ideia do que estava fazendo. Mais tarde, tudo me pareceu claríssimo.

Estou montando uma oficina chamada A arquitetura do romance, e desde o início eu tive certeza de que queria começar o curso falando de tudo que antecede a primeira frase de uma narrativa longa. Acho fascinante isso que estou chamando de “a montagem de um universo complexo”, que envolve muita leitura, esquemas, anotações dispersas e um pouco de teatro mental, o que para mim parece tudo, menos frio e engessado. Deve ser parecido com ser uma criança e tocar em uma coisa felpuda pela primeira vez.

Talvez não seja simpático o que vou dizer, até porque ter opinião, acreditar em alguma coisa, sempre pode soar pretensioso, mas tenho a impressão de que estão faltando “universos complexos” na literatura brasileira contemporânea. Há muitas razões para isso, e acho que levantei alguns deles nessa antiga coluna que fala sobre livros extensos. A de natureza prática não pode com certeza ser ignorada: em um país onde o mercado literário não lida com grandes cifras, dedicar-se a um romance enorme por anos a fio não é a coisa mais viável do mundo (ainda que escrever ficção não seja simple$ em país algum). Outra hipótese: falta técnica? Não sei exatamente o que pensar sobre isso. E ainda outra: é menos arriscado fazer, por exemplo, um livro que seja uma grande tiração de onda com o mundo literário do que tentar manejar a vida de três pessoas (faxineiro, guia turístico, deputado) que trabalham no Congresso Nacional durante a Era Lula? Sim, é.
Narrativas de menos fôlego podem ser sensacionais. Michel Laub e Lourenço Mutarelli são pessoas que fazem isso muito bem. Mas acredito que não nos faria mal nenhum ter uma versão local do Jeffrey Eugenides ou do Jonathan Franzen.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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