Monteiro Lobato

Lobato com alguns de seus personagens (Caricatura por Belmonte)

Por Lygia Fagundes Telles

Quando cheguei para a primeira aula na Faculdade de Direito, um colega aproximou-se sacudindo na mão o jornal, “Olha aí, o Monteiro Lobato foi preso por causa da carta que escreveu com aquela denúncia sobre o petróleo, lembra? O Getúlio Vargas aprontando outra vez; ele foi preso por crime de opinião, contrariar o presidente dá cadeia!”.

Enquanto eu lia a notícia, o meu colega esbravejava lembrando da nossa passeata, saímos levando na frente o estandarte do Centro XI de Agosto e a bandeira brasileira, todos na maior ordem e silêncio, quando de repente veio por trás a cavalaria já atirando! Um morto, feridos, presos…

“Ele está no presídio da Avenida Tiradentes. Vou lá fazer minha visita”, avisei guardando os livros e cadernos na sacola que dependurei no ombro.

O colega enfiou o jornal no bolso, “Não vão deixar você entrar, é claro!”. Fui saindo rapidamente, “Não custa tentar”. Ele me acompanhou até o ponto de ônibus, não podia ir porque tinha um exame nessa manhã, “E se deixássemos para depois?”. Despedi-me. “Tem que ser agora”.

Quando desci do ônibus, fiquei na calçada olhando o velho prédio encardido e frio. Subi a escada. Um guarda veio e pediu meus documentos. Entreguei-lhe a minha carteirinha de estudante e disse que viera fazer uma visita de solidariedade ao escritor. O guarda vistoriou a minha sacola, “Nenhuma arma?”. Olhou-me com uma expressão meio divertida e ordenou que o acompanhasse. No longo corredor que me pareceu sombrio ele avisou, a visita teria que ser breve mesmo porque já tinha um visitante lá dentro. Entrei na saleta fria. Uma mesa tosca, algumas cadeiras de palhinha. Em torno da mesa, Monteiro Lobato de sobretudo preto, um longo cachecol de tricô enrolado no pescoço. Sentado ao lado, o visitante de terno e gravata, calvo, os olhos azuis. Monteiro Lobato levantou-se abotoando o sobretudo e veio ao meu encontro com um largo sorriso. Era mais franzino e mais baixo do que eu imaginava. Tinha os cabelos grisalhos bem penteados e o tom da pele era de uma palidez meio esverdinhada, mas os olhos brilhavam joviais sob as grossas sobrancelhas negras. Ofereceu-me a cadeira que estava entre ambos. “Este aqui é um caro editor”, apresentou-o e disse o nome do editor, que não guardei. Sem saber o que dizer, fui logo enumerando os seus livros que já tinha lido e que ocupavam uma prateleira da minha estante, ah! as paixões da minha adolescência! Narizinho Arrebitado, Tia Nastácia, o Jeca Tatu, as memórias daquela boneca de pano, a Emília, o Saci-Pererê…

Ele interrompeu-me com um gesto afetuoso, eu sabia que era avesso às homenagens e assim entendi a razão pela qual desviou a conversa, afinal seus personagens não eram culpados pela sua prisão, mas sim as cartas que andou escrevendo, ou melhor, as denúncias que andou fazendo através dessas cartas, porque os livros os governantes não liam mesmo. Deviam ler mas não liam, e daí a ideia das cartas curtas e diretas. “Estou aqui no meio de bandidos, tinha que me calar ao invés de avisar que o petróleo é nosso, a mocinha já entendeu, hein? Sei que é estudante, mas o que está estudando?” Quando contei que estava na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, ele abriu os braços num gesto radiante, “Pois foi lá que eu me formei! Só que na nossa turma não tinha meninas, só marmanjos. Ah! se tivesse aqui um vinho a gente poderia brindar estes doutores! Quer dizer que a mocinha vai advogar?”. Comecei gaguejando, bem, era difícil explicar, era uma estudante pobre, queria me formar para ter um diploma e assim arrumar um bom emprego. Na realidade queria ser escritora, escrever contos, romances…

Monteiro Lobato voltou-se para o editor e tocou-lhe no ombro, “Olha aí a mocinha é vidente! Já está sabendo que escrever neste país não dá dinheiro, escritor morre pobre e ignorado. Então ela é uma vidente!” disse e tirou do bolso do sobretudo um pequeno bloco e uma caneta, “Vamos, deixe o seu nome e endereço, o meu amigo aqui vai lhe enviar algumas reedições dos meus livros, vamos, diga logo antes que o carcereiro apareça”.

Ele debruçou-se na mesa para escrever e quando lhe disse o meu primeiro nome ele perguntou, “É com y, não?”. Contei-lhe que escrevia com i porque assim achava mais fácil, mas minha mãe queria que eu escrevesse meu nome com y… Ele me olhou com severidade, “A sua mãe está certa, mocinha! Você acha mais fácil com i, mas desconfie sempre das facilidades, escrevendo com y o nome fica com duas pernas porque ali está o g, melhor para as andanças essas duas pernas, está me compreendendo? As facilidades são sempre sedutoras, mas superficiais, indague a origem do nome e veja se lá longe ele aparece com y”.

Chegou o carcereiro, que ficou em silêncio, rodando na mão a maçaneta da porta. Monteiro Lobato passou para o amigo a folha do bloco, levantou-se e me abraçou. Dirigiu-se ao carcereiro: “A doutora vai sair na frente, peço mais cinco minutos para tratar aqui com o amigo de um assunto urgente, é possível?”.

Fui na direção do carcereiro e saí sem olhar para trás.

* * * * *

O apartamento onde eu morava com minha mãe era pequeno, e ainda assim ela resolveu convidar alguns colegas e amigos para um vermute, era o meu aniversário. Saiu para comprar pão e presunto para o sanduíche e quando voltou veio anunciar toda satisfeita que tinha encontrado ali na Rua 7 de Abril um escritor importante, o nome? Ah! não podia dizer, era uma surpresa, ele ficou de aparecer. Estava anoitecendo quando a campainha tocou. Abri a porta e ali estava Monteiro Lobato com um ramo de flores: “Vim pagar a visita que a mocinha me fez lá no presídio”.

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