Moral? Que moral?

Por Marcelo Coelho
FSP

Saques motivados pela fome? Podemos entender. Saques motivados pelo luxo, eis algo inadmissível

Nada melhor do que um primeiro-ministro conservador, como David Cameron, para reagir rapidamente à onda de saques, de incêndios e de desordem que tomou conta da Inglaterra nos últimos tempos.

Ele poderá falar, não sem razão, da necessidade de lei e ordem. Apontará os sintomas de um “colapso moral” na sociedade. Atingirá, como provavelmente ninguém da esquerda pode fazer, o coração das pessoas de bem, que lutam para subir na vida e não aceitam a delinquência bárbara (e é bárbara mesmo) das gangues da periferia.

Dito isto, gostaria de prosseguir um pouco na reflexão. Não me convencem as lições de moral proferidas por governantes. David Cameron acabou de sair arranhado pelo escândalo dos tabloides britânicos.

Tinha nomeado como seu secretário de imprensa Andy Coulson, posteriormente preso porque, como editor do “News of the World”, foi responsável pelas escutas ilegais daquele jornal à procura de escândalos.

Os parlamentares britânicos estiveram recentemente envolvidos numa farra de gastos sem autorização, capaz de rivalizar com os trambiques de Brasília. Não é preciso lembrar o papel vergonhoso de Tony Blair na Guerra do Iraque. Deixou de considerar importante a questão de Saddam Hussein possuir as armas de destruição de massa, que ele achava importantíssima.

Achava importantíssima antes de não ter sido encontrada nenhuma arma de destruição de massa. Onde estariam, portanto, as raízes do “colapso moral” apontado por David Cameron? Seria fácil dizer que “as elites” são mais imorais do que “as massas”. Gostaria de observar que o problema não é de moralidade ou imoralidade. Veja o que disse a maioria dos comentaristas a respeito dos saques na Inglaterra.

Numa sociedade desenvolvida, os saques foram chocantes. Não se tratava de pegar leite ou batatas num supermercado. Os desordeiros queriam DVDs, iPads, Blackberrys ou não sei mais o quê.

Teoricamente, isso seria um sinal de “imoralidade”. Saques motivados pela fome? Podemos entender. Saques motivados pelo luxo, eis algo inadmissível. Será? Toda a estrutura de nossa sociedade afirma que sem um tênis Nike, um iPad ou uma camiseta de grife você não é nada.

Esses badulaques se tornaram, assim, artigos de primeira necessidade. O saqueador alcança, rapidamente e sem punição à vista, o passaporte que o levará a conquistar as mulheres mais bonitas e o respeito dos seus pares. É mais do que simplesmente alimentar-se e sobreviver. Trata-se de existir.

Ao mesmo tempo, o saque é ambíguo. Representa, em doses iguais, revolta e adesão. Destruo aquilo que eu desejo. Arrebento a vitrine que me separa do paraíso, mas também escolho, definitivamente, o caminho da danação. Na violência dessas desordens, vejo ao mesmo tempo denúncia e cumplicidade. Sabemos perfeitamente que uma grife não significa coisa nenhuma. Sabemos que todo o consumo contemporâneo está montado numa mentira.

A mentira da propaganda se duplica em outras mentiras, em incontáveis mentiras. Uma agência de risco mente quando eleva ou rebaixa o risco de um país. Um país mente quando imprime moedas ou títulos da dívida que, promete, vai pagar. O consumidor mente quando usa um cartão de crédito cujas mensalidades não sabe bem como ficarão. Na própria palavra (cartão de crédito), pode-se ler “acreditar”.

O consumidor acredita, por sua vez, que é escolha sua um produto cientificamente elaborado para suscitar os seus desejos. Você sabia que até o cheiro de carro novo é produzido por um “spray”? É o que leio num livro recente de Martin Lindstrom, guru dinamarquês do marketing e do “branding”. Chama-se “A Lógica do Consumo” (editora Nova Fronteira).

Eles estão usando técnicas da neurociência para chegar mais perto da mentalidade dos consumidores. Adeus, pesquisas de opinião. Os técnicos da propaganda e do marketing medem diretamente a sua atividade cerebral. E, mesmo que aparentemente você não goste de um produto ou de um programa de TV, eles identificam o prazer que produziram no seu cerebelo.

Cheiros, sons e cores ajudam a atrair você a entrar numa butique. Mesmo proibindo propaganda de cigarro, os consumidores de Marlboro aumentam quando se usa cientificamente a cor vermelha. Vá falar em moral e disciplina numa sociedade dessas.

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