Morde e assopra

Por Lucas Neves
FSP

O murro em ponta de faca do teatro de classe média não convence Paulo José

RESUMO

Com três peças em cartaz, com um papel em novela da TV Globo e prestes a estrelar filme de Selton Mello, o ator e diretor teatral Paulo José falou à Folha sobre o teatro brasileiro, dos anos 60 aos anos 90; critica a dramaturgia contemporânea e comenta o impacto do Parkinson em sua carreira e em sua vida.

“Utile et Dulce”. A inscrição em latim, gravada no pórtico do palco que nos anos 1940, em Bagé (RS), deu a Paulo José as boas-vindas ao teatro, viraria talvez a profissão de fé de sua arte.

Útil e agradável, mobilizadora e prazerosa: é nesse intervalo entre as duas (ou seria no contágio recíproco e infinito?) que repousa a visão do ator e diretor de 74 anos sobre o trabalho que lhe coube.

Na espaçosa casa do Alto da Gávea, na zona sul carioca, em que recebe a Folha, ele ensaiou trechos das três peças com que corre o país desde 2009. “Murro em Ponta de Faca” é o reencontro com a crônica do exílio tecida por Augusto Boal (1931-2009) que ele já havia dirigido em 1978. Está em cartaz em São Paulo.

“Histórias de Amor Líquido”, que teatraliza a impermanência dos relacionamentos afetivos -na conceituação do polonês Zygmunt Bauman-, aporta por esses dias no festival Porto Alegre em Cena. E “Um Navio no Espaço Ou Ana Cristina Cesar”, em turnê, apanha Paulo em dupla jornada: ator e diretor.

Ele ainda defende um papel na novela global “Morde e Assopra” e se prepara para o lançamento, em outubro, de “O Palhaço”, longa de Selton Mello em que interpreta Puro Sangue, pai do clown ensimesmado encarnado pelo diretor.

Na entrevista a seguir Paulo cutuca a dramaturgia brasileira atual, critica a fixação do cinema por linguagens importadas e fala da doença que o acomete há 18 anos, o mal de Parkinson. Em quase duas horas e meia de conversa, os poucos sintomas visíveis são a perda de fôlego aqui e ali e a lentidão na superação de determinadas sílabas.

Folha – Há, na decisão de reencenar “Murro em Ponta de Faca”, saudosismo de um certo teatro de grupo representado pelo Arena dos anos 50 e 60?

Paulo José – Não é saudosismo. Não acho que autores como Boal, Gianfrancesco Guarnieri e Oduvaldo Vianna Filho estejam ultrapassados. Existia uma geração de teatro que sabia escrever. Depois, vem um teatro da irracionalidade, mais corporal, físico. Hoje, se retoma a palavra. Mas os dramaturgos ainda tratam demais da sua realidade de classe média, estão voltados para o próprio umbigo.

Mas tem de haver necessariamente um discurso sociopolítico de fundo para validar o teatro?

Não estou falando de política. Estou falando de qualidade literária em si. Nosso texto é muito reticente, coloquial. “E aí, cara, qual é?”. É tatibitate, falta fôlego. Você vê que as peças são em geral curtas, têm só dois ou três atores. É difícil você ver em cena o que tivemos nos anos 50 e 60, em montagens como “Pequenos Burgueses”, do Górki, “Galileu Galilei”, do Brecht, ou “O Rei da Vela” [de Oswald de Andrade].

Isso não tem a ver com um contexto de agitação cultural e política? Esse cenário não estimula a criação de um teatro mais retumbante?

Não tem dúvida de que é possível, sim. Acho que nós caminhamos para isso, para sair do pequeno gabinete da classe média. A temática da classe média é muito chata, o teatro foi invadido por ela. Não consigo fazer uma peça que agrade muito ao público. Não que seja contra a gratificação. Mas você não pode abrir mão de certos princípios. A boa escrita é fundamental. O teatro é feito de grandeza e pode voltar a tê-la. Tenho vontade de montar um “Galileu Galilei” ou um “Círculo de Giz Caucasiano” [também de Brecht].

Quando foi dirigir o Grupo Galpão (2003), você ficou ressabiado porque sua bibliografia teatral parava nos anos 70. Mas logo viu que “não tinha acontecido muita coisa” nesse intervalo. O que diz do besteirol e dos encenadores (Gerald Thomas, Moacyr Góes, Ulysses Cruz…) que se afirmam nos anos 80 e 90?

O besteirol era muito engraçado, divertido. Mas apenas isso. Não dá para erguer um monumento a ele. Não sobrou nada. O Ulysses foi parar na TV. Tá lá, feliz da vida, fazendo “Criança Esperança”. O Moacyr Góes foi fazer filmes para o [produtor] Diler [Trindade], com o padre Marcelo Rossi [“Maria, Mãe do Filho de Deus” e “Irmãos de Fé”]. Muito engraçado isso. Não tem nada que tenha ficado mais do que o teatro dos anos 60. Num país como o nosso, há pouca memória.

A minha experiência com gente jovem é às vezes meio assustadora, pela quantidade de coisas que eles ignoram. Me surpreendo com as perguntas. Seria normal que o jovem fosse agressivo, iconoclasta. A gente, quando novo, achava o TBC [Teatro Brasileiro de Comédia] um horror, uma imitação do teatro europeu. Polemizava, brigava. Agora, tem um negócio que é chato, constrangedor, que é a admiração. Eu vivo desmistificando os anos 60, o heroísmo, o peito aberto. Éramos uns infelizes! Não tinha jeito senão correr da polícia.

Você já se referiu às pornochanchadas dos anos 70 como “produções medíocres, com muita mulher pelada, sexo quase explícito, que agradam ao público médio”. Essa fase não representou um embrião de indústria cinematográfica?

A qualidade nasce da quantidade, não tem dúvida. Para que isso aconteça, é preciso que haja uma indústria. O que não me impede de achar os filmes [dessa fase] muito vagabundos. O ponto de partida já é ruim. Supõe-se que o povo queira ver determinadas coisas. Mas o que define o cinema é ser autoral, como a música, a literatura.

Você disse certa vez concordar com quem torce o nariz para o cinema brasileiro. O que falta aos filmes?

As pessoas estão viciadas em uma certa linguagem de cinema americano. O [consultor] Syd Field é o mestre do roteiro, do “como fazer um filme igual a muitos outros que você já assistiu”: tem o primeiro ponto de virada aos 17 minutos, o outro aos 43. É tudo medido. Quando um filme não cabe nessa fôrma, as pessoas ficam perturbadas. A gente está preso a um timing, a um cinema todo cortado. Dizer que os filmes do cinema novo não eram populares é uma inverdade. “Deus e o Diabo na Terra do Sol” é popular. Não há quem não entenda: é uma fábula primária, simples. Agora, é uma linguagem à qual não se está acostumado.

Como avalia a gestão de Ana de Hollanda no Ministério da Cultura?

Não saberia dizer. Mas o primeiro ano de governo é [para] botar a casa em ordem. Ela não quer fazer uma política continuísta. Não sei ainda qual é a política cultural do governo. O PT nos vê um pouco como burgueses, que querem viver bem, com fartura. Não somos preferenciais.

Muita gente diz que ela entrou sem conhecer a pauta do ministério…

A [nomeação da] Ana de Hollanda foi uma pressão interna lá do pessoal do [Antonio] Grassi [atual presidente da Funarte], que tinha caído em desgraça, mas foi reabilitado. E aí desgraçou o ex-ministro Juca Ferreira, que, independentemente do que estivesse fazendo no ministério, seguia uma ideia de mudança, de parar para repensar.

Que adaptações o mal de Parkinson exige na escolha dos personagens e em sua movimentação de cena?

Estou bem melhor agora do que há quatro anos, porque fiz uma cirurgia para instalação de uma espécie de marca-passo cerebral. A frequência elétrica emitida por ele inibe os movimentos involuntários, acaba com tremores e rigidez muscular. Diminuí a medicação, minguaram os efeitos colaterais. É claro que não posso fazer o papel de um corredor. Mas a idade não me permitiria isso. Para a doença, o fato de eu estar em cena é ótimo. O personagem é mais forte do que o ator. O que te deixa inseguro é ter texto novo, ter de criar falas. Se você já sabe a condução do personagem, está só repetindo: já viu, já andou ali. Fica fácil.

Como lida com a reação das pessoas ao Parkinson?

O irritante é ser tratado como criança pelas enfermeiras do hospital. “Chegou a sopinha, vovô vai tomar a sopinha dele agora!”. Porra, caralho, que sopinha o quê!

Você se irrita?

Não muito. Algumas pessoas dizem: “Estimas de melhoras, viu?” Que melhoras, porra, eu tenho uma doença degenerativa! E nas lojas, com os detectores de metal na porta, tenho de pedir para desligarem antes de entrar, senão pode desconectar meu marca-passo. Às vezes, a negociação demora. Teve um cara que veio me atender e disse: “Nossa, que doença terrível o senhor tem! Tenho uma pena do senhor… Eu me matava, não aguentava ficar assim”.

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Bethânia Lima 11 de setembro de 2011 21:54

    uma bobagem a doença…ele continua esbanjando talento e trabalhando com paixão! é o que importa…

  2. Marcos Silva 11 de setembro de 2011 20:17

    Paulo José é ótimo ator, quem fez O padre a a moça, Todas as mulheres do mundo e Macunaíma merece o maior respeito. Agora, o problema nem é temática de classe média, o problema é a temática não alçar vôo artístico via reflexão crítica.

  3. Marcos Silva 11 de setembro de 2011 20:14

    Em relação ao cara que disse que se mataria, a melhor resposta seria: fique à vontade!

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