Morre o artista plástico León Ferrari

Ferrenho opositor à igreja católica, León Ferrari fez colagens com imagens religiosas e de campos de concentração Foto: Divulgação - www.leonferrari.com.ar

Ferrenho opositor à igreja católica, León Ferrari fez colagens com imagens religiosas e de campos de concentração Foto: Divulgação – www.leonferrari.com.ar

O GLOBO

RIO – Crítico contumaz da Igreja Católica e da ditadura argentina, que recebeu o Leão de Ouro em 2007, León Ferrari morreu de câncer nesta quinta-feira, aos 92 anos, em Buenos Aires, sua cidade-natal. Um dos mais importantes nomes da arte latino-americana, Ferrari foi um homem de opiniões contundentes — e não temeu torná-las públicas. Defendeu repetidamente que a Igreja católica foi cúmplice da ditadura na Argentina, afirmou que Jesus Cristo foi um “intolerante” e, quando o Papa Francisco foi escolhido para o posto, comentou (a pedido da “Folha de S.Paulo”): “É um horror, é um horror. Vai ser um papa muito autoritário, com certeza”.

Sua inabalável postura crítica — que parecia destoar da aparência serena e da fala sempre tranquila, sem sobressaltos — foi mote para obras icônicas na História da arte, sendo a principal delas a escultura “La civilización occidental y cristiana”, de 1965, em que Jesus é pregado num avião bombardeiro norte-americano. A peça emblemática está agora no Rio, entre as cem obras da exposição “América do Sul — a pop arte das contradições”, em cartaz até 14 de agosto no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio, onde estão outros dois trabalhos do argentino.

Ferrari começou a flertar com arte aos 20 anos, na década de 1940, quando estudava engenharia. Seu pai era pintor, e não o aconselhava a seguir o mesmo caminho, dadas as dificuldades para sustentar a família. Nos anos 1950, porém, o jovem passou a trabalhar com argila (sem abandonar a profissão de engenheiro). Já naquela década chegou a expor, mas só obras de arte abstrata, que deixou de fazer precisamente em 1965, quando criou a célebre “La civilización occidental y cristiana”. (Veja um vídeo com entrevista do artista).

Nesse ano, também iniciou sua relação com o Instituto di Tella de Buenos Aires, um dos espaços mais importantes para artistas na Argentina naquela época. Foi lá que Ferrari mostrou pela primeira vez seu Cristo “crucificado” num avião, premiado pelo mesmo instituto.

Pouco depois, em 1976, compilou notícias sobre a repressão da ditadura militar e as publicou num livro intitulado “Nosotros no sabíamos”. No mesmo ano, deixou o país, como declarou, “por razões políticas” e se exilou em São Paulo, onde conviveu com artistas como Regina Silveira e diversificou suas técnicas, ingressando na litografia, nas fotocópias, entre outros.

Em 1983, voltou ao tema da religião. Outra vez sem temer polêmicas (ou a fim de suscitá-las), Ferrari fez colagens com ilustrações da Bíblia e imagens eróticas orientais. No MAM de São Paulo, em 1985, expôs uma jaula com pombas que defecavam sobre a imagem do “Juízo final”, de Michelangelo.

Manteve-se crítico contumaz da Igreja por muitos anos — em 2000, por exemplo, expôs no ICI, em Buenos Aires, a mostra “Infiernos e idolatrías”, que dizia ser “contra as torturas humanas e divinas”. A exposição, claro, despertou a fúria de grupos católicos que, em resposta, passaram a rezar na porta do local e lançaram bombas de gás lacrimogênio dentro da instituição.

Em 2004, de novo, uma retrospectiva de sua obra no Centro Cultural Recoleta — onde estava, mais uma vez, “La civilización occidental y cristiana”, ao lado de estátuas da Virgem Maria em pequenos frascos de vidro — foi invadida por grupos católicos e teve obras destruídas. Houve quem ameaçasse processá-lo ou pedir o encerramento da mostra na Justiça. O artista acabou por encerrá-la um mês antes do previsto para evitar mais problemas. Na ocasião, o então cardeal Jorge Mario Bergoglio, hoje Papa Francisco, chamou Ferrari de “blasfemo”.

Sua importância foi reconhecida internacionalmente em seguida. Em 2007, ele recebeu o Leão de Ouro na 52ª Bienal de Veneza, principal prêmio das artes visuais. Em 2010, a Arco, feira de arte em Madri, concedeu a ele o título de melhor artista internacional vivo pelo conjunto das obras exibidas por lá. Em 2009, ganhou exposição no MoMA, em Nova York, ao lado de Mira Schendel. Na ocasião, o museu divulgava a mostra como sendo a chance de ver obras dos “dois mais importantes artistas da América do Sul no século XX”.

Recentemente, já doente de câncer, Ferrari não foi à exposição em sua homenagem no centro cultural da ESMA, um antigo centro de tortura transformado em museu de direitos humanos na Argentina. Sua mostra foi encerrada no início de junho. O argentino morreu ontem, aos 92 anos, em Buenos Aires. Teve três filhos, e um deles desapareceu, vítima da ditadura em seu país.

Ferrari teve três filhos, e um deles desapareceu, vítima da ditadura em seu país.

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