Morre o poeta argentino Juan Gelman

Por Janaina Figueiredo
O GLOBO

BUENOS AIRES – A Argentina perdeu nesta terça-feira um de seus grandes poetas contemporâneos. Aos 83 anos, faleceu Juan Gelman, cuja vida esteve marcada pela perda de um filho, Marcelo, vítima da última ditadura militar argentina (1976-1983). Há pouco mais de dez anos, Gelman encontrou sua neta, Macarena, que nasceu no Uruguai, onde sua mãe, Maria Claudia, também vítima dos militares, esteve sequestrada. A história de Gelman e sua neta é prova contundente da sinistra Operação Condor, o plano de ação conjunta entre as ditaduras do Cone Sul nas décadas de 70 e 80.

Gelman morreu no México, onde morava há mais de 20 anos. Vencedor do Prêmio Cervantes, em 2007, o poeta esteve pela última vez na Argentina em agosto de 2013. Autor de mais de 30 livros, ele é um dos grandes nomes da literatura argentina das últimas décadas. Sua primeira obra, “Violino e outras questões”, foi publicada em 1956. Depois vieram outros livros, como “Os poemas de Sidney West, em 1969; “Fábulas”, em 1971; “Carta Aberta”, em 1980, e Composições, em 1983. O poeta entrou aos 15 anos para a Juventude Comunista e em 1948 abandonou a carreira de Química, para dedicar-se à poesia.

O encontro com sua neta foi notícia no mundo inteiro e o caso foi um dos mencionados no julgamento sobre a Operação Condor e, também, o chamado plano sistemático de roubo de bebês durante a ditadura, que terminou com a condenação à prisão perpétua do ditador Jorge Rafael Videla, falecido em março de 2013.

Macarena é filha de Marcelo Gelman e Maria Claudia Garcia, sequestrados em Buenos Aires em 24 de agosto de 1976. Na época, Maria Claudia estava grávida de sete meses e meio e foi levada para o Uruguai, onde deu à luz a sua filha. O bebê foi deixado na porta da casa de um policial aposentado, que criou Macarena junto com sua mulher. Desde que soube a verdade, a neta de Gelman tornou-se uma militante pela defesa dos direitos humanos em ambos os países.

Macarena e seu avô continuavam lutando para encontrar os restos de Maria Claudia. Em entrevista ao GLOBO realizada em 2009, a neta de Gelman contou que seu avô chegou a pedir ajuda a vários presidentes do Uruguai, entre eles Julio Maria Sanguinetti (1985-1990 e 1995-2000).

– Todos os governos antes da chegada da Frente Ampla ao poder e, sobretudo, o do ex-presidente Julio Maria Sanguinetti, acobertaram os militares – assegurou Macarena.

– Meu avô (Gelman) lhe perguntou sobre o caso e Sanguinetti chegou a dizer que no Uruguai não existiam crianças desaparecidas. Sanguinetti mentiu e deveria dar uma explicação – disse a jovem uruguaia, que foi informada sobre sua verdadeira origem por sua mãe adotiva, já que seu pai adotivo havia morrido quatro meses antes.

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Lívio Oliveira
    Lívio Oliveira 15 de Janeiro de 2014 6:19

    Palavras do já saudoso poeta argentino Juan Gelman:

    “La crisis de la modernidad es muy profunda y va mucho más allá de lo económico. Hace años ya que se nos quiere uniformar el alma para convertirla en tierra fértil de cualquier autoritarismo. Impera un darwinismo social brutal y prepotente. La llamada globalización impulsa un genocidio más lento que el de los hornos crematorios, pero no menos bárbaro: se llama hambre. La poesía se levanta contra el empobrecimiento espiritual que todo ello acarrea. La poesía es resistencia no más porque existe.”

  2. Jarbas Martins 15 de Janeiro de 2014 8:09

    Talvez o maior poeta da contemporaneidade.O primeiro contato com Juan Gelman deu-se, através de uma entrevista que Haroldo de Campos fez com esse revolucionário poeta argentino, torturado e perseguido pela ditadura argentina.Algum tempo depois, meu amigo Nelson Patriota trouxe-me de Buenos Aires, de presente, o livro “Incompletamente” (1997) ,onde se encontram alguns dos seus poemas mais instigantes.

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