Morreu o escritor e ex-ministro da Cultura espanhol Jorge Semprún

AFP

MADRI — O escritor e ex-ministro da Cultura da Espanha Jorge Semprún morreu ontem em Paris, informou a imprensa espanhola, citando familiares e fontes do Ministério.

Jorge Semprún era considerado uma testemunha excepcional do século XX. Nasceu em Madri, mas passou grande parte da vida em Paris, onde residia.

Membro da resistência francesa durante a ocupação nazista, foi detido e enviado a um campo de concentração. Sobreviveu ao Holocausto e agiu na clandestinidade contra o Franquismo pelo Partido Comunista. Depois da morte de Franco foi ministro de Cultura, durante o governo socialista de Felipe González.

No cinema, destacou-se com roteiros como o elaborado para o filme “Z” de Costa-Gravas.

Tinha 87 anos e construiu sua obra literária com base nas lembranças de sua juventude, em especial do período em que ficou preso em um campo de concentração alemão.

Boa parte de sua obra foi escrita em francês.

Sua experiência de vida marcaram alguns de seus principais livros como “A Grande Viagem”, centrada em seus dias como membro da Resistência francesa.

Jorge Semprún nasceu no dia 10 de dezembro de 1923 em Madri, de uma família da alta burguesia espanhola, defensora dos valores republicanos.

De sua mãe, morta quando tinha nove anos, Semprún evocava a imagem da mulher que hasteou a bandeira da República na janela em 1931, quando o rei abdicou.

Seu pai, advogado e diplomata republicano, “optou pelo exílio para ser fiel a suas ideias”, e foi para ele um “exemplo moral”. A família deixou a Espanha em 1936, ao explodir a guerra civil, instalando-se na Holanda e, depois, na França, em 1939.

Em setembro de 1943, foi detido pela Gestapo e deportado, aos 19 anos de idade, ao campo de concentração de Buchenwald, onde os comunistas se organizavam, cabendo a ele a tarefa de distribuir os detidos nos diferentes comandos de trabalho.

Quando foi libertado, em abril de 1945, optou pela “amnésia deliberada para sobreviver”. Mas a experiência marcou sua obra, desde “A Grande Viagem” (1963), passando, também por “La escritura o la vida” (1994) e “Moriré con su nombre, vivirá con el mío” (2002).

Depois de trabalhar alguns anos como tradutor na Unesco, voltou à Espanha, onde coordenou a ação clandestina do Partido Comunista Espanhol, com o pseudônimo de Federico Sánchez. Os anos de clandestinidade, em meio a convicções e dúvidas, seguiram-se à sua exclusão do partido, em 1964, por “desvio”, junto com Fernando Claudín, narrados na “Autobiografia de Federico Sánchez”, um dos poucos livros escritos originalmente em castelhano e que lhe valeu o Prêmio Planeta, em 1977.

Obrigado novamente ao exílio, distanciado do ativismo político, Semprún dedicou-se plenamente à literatura, seu refúgio durante a juventude parisiense, e em Buchenwald, quando a poesia o ajudava a suportar a promiscuidade asfixiante.

Em 1964 publicou “El desvanecimiento”; em 1969 foi a vez de “A segunda morte de Ramón Mercader”, com a qual obteve o prêmio Femina. Seguiram-se “Aquele Domingo”, “La algarabía”, Netchaiev voltou”, entre muitos outros títulos.

Paralelamente, Semprún foi adquirindo fama como roteirista, escrevendo para as grandes referências do cinema francês, como “A guerra Acabou” e “Stavisky” de Alain Resnais, além de contribuir para a renovação do cinema político com Costa-Gavras, com quem colaborou, além de “Z” em “A confissão”.

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