Morreu sem faixa presidencial

João:

Lacerda foi intelectualmente brilhante, o que agrava mais suas responsabilidades políticas em relação a 1964. Escrevia e discursava muito bem, o que piora sua situação diante do que se implantou no Brasil sob sua liderança. Mobilizava amplos setores da opinião pública, o que torna mais brutal seu papel no estabelecimento de uma ditadura no país – difícil imaginar algo pior para a humandade do que uma ditadura.

Não me considero talentoso no gênero biográfico mas desconfio que Lacerda é um grande personagem à espera de um autor – não sei se historiador ou dramaturgo (mais para a tragédia). Pena que Nelson Rodrigues não quis transformá-lo em personagem de teatro, algo na linha de “Anjo negro” (no caso dele, diabo branco? mas o diabo não sofreu tanto por não ser deus).

Tenho uma lembrança de meados dos anos 60, já depois da ditadura implantada. Alguns jovens colegas comunistas foram assistir a um discurso de Lacerda na cinema Rex, Natal. Não era masoquismo, era real admiração pelo brilhante orador.

Lacerda ergueu uma ditadura que o destruiu: quem manda criar cobras venenosas pensando que elas picarão somente os outros? Bem feito!

Preparou-se a vida inteira para ser presidente do país incensado pelo jornal OESP. Morreu sem ser presidente nem se assumir plenamente como escritor – exceto como jornalista, com campanhas e projetos editoriais fétidos. Paulo Francis é mesmo Lacerda II, no melhor e no pior.

Abraços:

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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