MORTE DE ULISSES

Por Márcio Dantas

Para os que têm pendor à errância
e a curiosidade pelo desconhecido,
nunca o farne de sair de casa cessa.
Para os que herdaram a maldição
de não quedar-se num canto,
de querer interagir e aprender,
cultivando a vinha ou consertando calçados,
em dias e trabalhos iguais, mesmos sóis e luas,
mesmos rostos que envelhecem aos poucos,
fica difícil se comprazer com o tédio
de constelações no firmamento, pálidas,
dizendo de uma garantia doméstica.
Nem filho amado ou esposa ditosa,
muito menos velhice de pai,
impedem o impulso maior de uma
nova jornada ao ignoto.
Navegando pelo então conhecido,
quer dizer, o que não mete medo,
o que diz de uma segurança (nem sempre certa),
o que o lenho palmilha sobre terras e águas,
da costa de Espanha até sua antípoda Ceuta,
cruzaram a estreita porta de Gibraltar,
para, açulado pela atávica vontade
de conhecer, sentir o sabor, experimentar o novo,
ouvir ritmos diferentes de vozes,
Para os que têm pendor à errância
e a curiosidade pelo desconhecido,
nunca o farne de sair de casa cessa.
Para os que herdaram a maldição,
adentram por imenso oceano desconhecido,
aceirando a recortada linha da África.
Eis que o preço do desejo irrequieto
pelo insólito, a paga e a purga de uma hybris
subjetiva buscando não os dois lados ditos naturais,
mas as ilhargas ignoradas das pessoas e coisas,
furnas onde, talvez, o mais precioso se resguarde.
Acontece que tudo tem seu fim.
Uma tempestade marítima afundou
o barco com seus tripulantes.
A sepultura, como não poderia deixar de ser,
foi as águas escuras do fundo do mar.

Comments

There are 4 comments for this article
  1. João da Mata
    João da Mata 8 de Novembro de 2011 15:23

    “Para os que têm pendor à errância / e a curiosidade pelo desconhecido,
    nunca o farne de sair de casa cessa”.

    Gostei Márcio da errancia faustica oceanica pelo cabo das tormentas. Camões- Goethe e Pessoas cujo ” farne” nunca cessa. De que mares ou ilha deserta ( será que é a dos amores / ) tu tirastes esse farne.

  2. Alex de Souza
    Alex de Souza 8 de Novembro de 2011 17:21

    poucos poetas da nossa terra dialogam com a herança clássica como márcio e francisco ivan. que beleza.

  3. Marcos Silva
    Marcos Silva 8 de Novembro de 2011 18:42

    Poema muito bonito. Lamentei que o título tenha ficado menos destacado que a categoria POESIA. Mas é poesia, claro. Um abraço.

  4. Jarbas Martins 9 de Novembro de 2011 6:58

    o ritmo, a sonoridade grega, o mar de Homero reverberam na pós-modernidade, através deste poema de Márcio Dantas.

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