A MORTE DE UM RIO

Governador Valadares
um dia se chamou Porto das Canoas
e também Figueira do Rio Doce.
Ali vivi a maior parte da minha infância.
No rio Doce, na ponta da Ilha dos Araújos,
no sopé do Pico da Ibituruna,
aprendi a nadar.
Ali colhia e chupava
as bagas adocicadas do ingá,
que se debruçavam sobre as águas
cristalinas do rio Doce.
Meu rio Doce tinha um sorriso largo.
E, hoje, seu riso é amargo.
E choram com ele todos os rios de Minas Gerais
poluídos e assassinados pelos vis metais…
A ganância insana dos homens,
até onde nos levará?
De que adianta ferir a terra, extrair os minérios
tirar as riquezas do ventre da terra,
haurir tanto lucro, dinheiro, contas em bancos
e deixar a natureza despida de toda a sua dignidade?
As represas que se romperam mostram a fragilidade
e o descaso do homem com o próprio homem.
Riquezas nos bancos e pobreza espalhada em mares de
lama que arrasam cidades, engolem os rios, sepultam vidas.
É triste ver a morte de um rio.
Isso também é terrorismo praticado contra a natureza.
E a natureza somos todos nós.
Se a matamos, morremos também. a
Tristezas em Paris, tristezas aqui…
Morrem homens e rios.
E com eles, um pouco de nós morre também…
Quero o rio da minha infância de volta.
Quero, de novo, mergulhar em suas águas.
E ver o brilho de lambaris e piaus na ponta
da vara de pesca que alimentava famílias.
Quero ver o rio a correr de novo lépido
no sopé da Ibituruna.
Quero vê-lo de novo cristalino, sadio, potável,
trazendo a água que alimenta de vida a Figueira do Rio Doce.
Quero de volta o meu riso doce das águas tranquilas
que não existem mais.

*José de Castro, jornalista, escritor, poeta. Autor de livros infantis. Membro da SPVA/RN e da UBE/RN. Membro correspondente da Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil – ALACIB – Mariana/MG. Contato: josedecastro9@gmail.com

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Comments

There is 1 comment for this article
  1. Anchieta Rolim 17 de Novembro de 2015 22:00

    Belo texto. Poeta José de Castro!

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