Moscou, de Eduardo Coutinho

É novamente o bom teatro em Cena. Dessa vez com um dos melhores diretores de cinema do Brasil – junto com uma grande companhia teatral, o grupo Galpão. Ficção e realidade. Grandes atores e pessoas comuns juntas numa das maiores peças do repertório do teatro mundial. A peça “ As três Irmãs” do dramaturgo russo Anton Tchekhov. Peça encenada no mundo inteiro e que já teve uma Judith Anderson, no grande papel de Olga, a irmã mais velha de uma das três irmãs. Olga, Macha e Irina vivem com o irmão, Andrei, uma vida decadente e sem esperança. É preciso viver, diz Macha.

Em 1973 nada menos que sir Lawrence Olivier dirigiu para o cinema esse espetáculo que tinha a grande atriz Jean Plowright como Macha, e o próprio Olivier no papel do médico militar Ivan Romanovitch Tchebutykin. Um dos principais papeis da peça, o tenente coronel Aleksandr Verchinin, foi protagonizado em montagens memoráveis pelos grandes atores Alan Bates e um dos pais do teatro moderno, Stanilavski. “ A natureza nos fez nascer para o amor”, diz Tchebutykin rindo, numa das frases memoráveis da peça. Se a vida fosse um rascunho que depois pudéssemos passar a limpo, então poderíamos criar condições de vidas diferentes. Nesse caso eu não me casaria e teria uma casa florida, etc, Minha mulher não tem saúde. Então se fosse passar a limpo, não me casaria. É errado casar. Bravo Tchekhov.

São três semanas para montar uma peça com muita intertextualidade e sub-textos. Um teatro de sombras. Não vejo você direito… Ficar em casa é muito chato, é preciso trabalhar.

Andrei: – Nosso pai, que Deus tenha sua alma, nos esmagava de cultura… Depois de sua morte fiquei gordo, como se meu corpo tivesse se libertado de uma carga.

Macha: – Nesta cidade conhecer três línguas é um luxo inútil. Qualquer coisa assim como um sexto dedo.
Tchekhov foi um médico que escreveu algumas das maiores peças do repertório para o teatro mundial. Coutinho é um médico das nossas chagas existenciais que encontra em Tchekhov um grande roteiro para falar das nossas mazelas. Da nossa falta de memória. De decadência. Numa pungente montagem de um texto eterno por um dos maiores diretores de cinema da atualidade. Se há decadência na história, nosso bom teatro mostra que há uma delicadeza e beleza nessa decadência. Mesmo que não seja entendia por muitos. Belo espetáculo. Bravo Coutinho e Galpão.

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Marcos Silva 5 de Fevereiro de 2014 18:29

    Gosto muito desse filme. Moscou é aqui, acolá, em toda parte. Fiquei muito impressionado com a finalização em filme de uma encenação que nunca se finalizaria no palco. Em Eduardo Coutinho, real e ficção se constituem em problemas, não em fórmulas. Grande, grande.

  2. DAMATA 5 de Fevereiro de 2014 21:59

    Caro Marcos, tambem adorei. Vi num dos FestNatal. Coutinho deixa uma imensa lacuna. Seus trabalhos são magistrais e mostram o poder da arte e do documentário. Edifício Master mudou para melhor a vida dos moradores. Cabra marcado pra Morrer é um marco no cinema – documental brasileiro. Meu amigo Coutinho deixa um grande legado e sua obra está viva.

  3. Marcos Silva 6 de Fevereiro de 2014 5:31

    Há quem fale em docudrama para definir o que Coutinho fazia: a emoção borbulha nas falas, nos ângulos.
    Lembro da passagem de “Cabra marcado para morrer” em que João Virgínio Silva narra os sofrimentos de quando foi preso, perda de uma visão, de um humilde patrimônio que detinha (um jipe intencionalmente destruído pelos algozes), tortura – mergulhado num tanque onde flutuavam detritos. Sobrevivendo diante de tudo isso, conclui: “Só o Satanás!”. E arremata: “Mas não tem melhor do que um dia atrás do outro e uma noite no meio. As graças de Deus estão aí, caindo a toda hora.”
    No nível de Guimarães Rosa! Guimarães Rosa no pensamento de um quase analfabeto!
    É mais que gênero (documentário ou ficção), é Arte.

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