Moscou

“No caso de Moscou, o projeto não previa gravar eventos que ocorreriam de qualquer maneira, independentemente da vontade do realizador e fora do seu domínio. Coerente com sua filmografia, Coutinho iria propiciar a situação a ser documentada. Ele escolhe As Três Irmãs, de Tchekhov, convida o Grupo Galpão para ensaiar e Enrique Diaz para dirigir o ensaio. Essa proposta de registrar o que seria uma encenação distingue Moscou, de forma nítida, dos documentários anteriores feitos por Coutinho, de Santo Forte, de 1999, a Jogo de Cena, de 2007, nos quais depoimentos são a marca registrada.

O título original do filme, Antes da Estréia, tinha sentido dúbio para um documentário, considerando que não haveria estréia. O Grupo Galpão e Enrique Diaz aceitaram o desafio de ensaiar diante da câmera sem o propósito de vir a encenar As Três Irmãs. O único objetivo do ensaio fragmentário de trechos da peça era ser gravado.

Até esse momento, tudo é artifício. Coutinho cria o evento e até começar a gravar mantém relativo controle sobre o processo. Mas, à diferença de um filme de ficção, o que acontece diante da câmera, em um documentário, é imprevisível. E na gravação de Moscou, nada aconteceu. Ao contrário do fio de intriga das peças de Tchekhov, célebres pela dimensão trágica, sem que a narrativa seja estruturada através do encadeamento de eventos, no filme a ausência de acontecimentos e conflitos não tem relevância dramática. Enquanto o texto teatral dá acesso à vida interior das personagens, na gravação do ensaio foi registrada apenas uma visão externa do elenco. Tchekhov retrata a impotência de mulheres e homens que desperdiçam a vida. Moscou mal chega a esboçar atrizes, atores e o diretor teatral, todos trabalhando em aparente harmonia.”  Por Eduardo Escorel da piauí (só para cadastrados)

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