[POTIRATURA] Síntese do Movimento Modernista no Rio Grande do Norte

A crítica potiguar, na literatura, rotineiramente divide o período em dois momentos, sendo o primeiro iniciado por volta dos anos 1920, em especial com Jorge Fernandes e sob influência de Câmara Cascudo (este, um dos maiores divulgadores das ideias modernistas), e o segundo a partir da década de 1950, já com o surgimento de outras revelações do campo literário.

Jorge Fernandes, embora não tenha se ligado a qualquer escola literária, adotou em sua produção o verso livre, dentro das novas propostas, sem rima e sem métrica e, por isso, foi visto como um “Modernista da Linha de Frente” no Estado. A própria personalidade central do Movimento Modernista no Brasil, Mário de Andrade, ao receber, por Câmara Cascudo, alguns poemas de Jorge, admirou-se tanto pelo material que fez questão de demonstrar via correspondência. O poeta publicou, em 1927, com recursos próprios, o seu “Livro de poemas”. Como era de se esperar para uma época em que a poesia seguia moldes parnasianos, a repercussão foi quase inexistente e a obra ficou esquecida, sendo o autor redescoberto somente em 1964, através do estudo “Dois poetas do Nordeste”, lançado por Veríssimo de Melo. Posteriormente, o “Livro de poemas” foi reeditado, com acréscimo de poemas e textos esparsos.

Aproximando-se do final dos anos 1920 surgiram os prosadores. O ex-governador Antonio de Souza, sob o pseudônimo de Polycarpo Feitosa, publicou em 1928 o romance “Flor do sertão”, de cunho regionalista. Dois anos mais tarde, com estrondoso acolhimento, lançou a obra “Gizinha”, cujo “desdobramento do texto”, nas palavras do crítico literário Tarcísio Gurgel, “revelam uma riqueza narrativa capaz de justificar a fama que o romance obteve. E a sua leitura completa oferecerá ao leitor a chance de conhecer uma Natal que não mais existe, onde os grandes acontecimentos davam no Theatro Carlos Gomes, o clube principal era o Natal-Clube e onde o futebol já começava a disputar preferência com o remo, esporte que ainda atraía multidões às margens do Potengi”. Recentemente o escritor Manoel Onofre Júnior, pela Coleção Presença, biografou o intelectual em pequeno livro sob o título de “Polycarpo Feitosa – O excêntrico Doutor Souza”, obra importantíssima que traça um perfil ao passo que resgata a figura do ostracismo.

Leia o ensaio “A poesia natalense de Jorge Fernandes”, de Humberto Hermenegildo

No mesmo tempo situa-se Aurélio Pinheiro e José Bezerra Gomes. Sobre o romance “Macau”, de Aurélio, o ensaísta Américo de Oliveira Costa disse que “há, nele, simbolicamente, um ar específico de ambiente provinciano, capaz de ser verificado noutras áreas urbanas de condições semelhantes. Particularidade, mesmo, da velha cidade litorânea, há, apenas, além das referências a subúrbios, salinas, o aterro, ruas, praças e edifícios característicos, a fisionomia de certos tipos e personagens cujos nomes de ficção não chegam a impedir o reconhecimento dos seus nomes civis ou de batismo”. José Bezerra Gomes, por sua vez, produziu, em vida, o romance “Os brutos”, espécie de iniciação ao ciclo do algodão e que se insere, sem dúvidas, no meio do chamado Regionalismo Nordestino de trinta, além de “Por que não se casa, Doutor?”, este considerado a sua obra-prima, com “enredo muito simples, tchecoviano, sem lances dramáticos, suspense ou artifícios para impressionar o leitor; limita-se apenas a narrar, como num diário íntimo, fatos cotidianos, corriqueiros”, conforme comentou o pesquisador Manoel Onofre Junior. Por fim, já em 1974, publicou “A porta e o vento”, novela fragmentária, talvez comprometida pela doença mental que acometeu o autor desde moço.

A poeta e bibliotecária Zila da Costa Mamede (1928-1985).
Fotografia: Biblioteca Digital de Monografias da UFRN.

Tarcísio Gurgel, em seu livro “Introdução a cultura do Rio Grande do Norte”, informou que “durante a Segunda Guerra Mundial o Rio Grande do Norte viu-se subitamente envolvido no conflito, por sua situação estratégica”, e continua, mais a frente, dizendo que “a cidade [de Natal] viveu, nesses anos, entre o sobressalto e o orgulho de participar do combate ao nazismo, mal lhe sobrando tempo para dedicar-se às atividades literárias”. Com a redemocratização pós-guerra, contudo, ocorreu o aparecimento de numerosos escritores, sendo, em especificamente, Antonio Pinto de Medeiros e José Gonçalves de Medeiros os que possuíam liderança nata.

Zila Mamede, considerada uma das grandes poetas do Estado, também faz parte do período. Autora fascinada pelo mar, dedicada ao cuidado com a construção lírica, lançou os livros “Rosa de pedra”, “Salinas”, “O arado”, “Exercício de palavra”, “Corpo a corpo” e “A herança”

São desta época, ainda: Berilo Wanderley, Celso da Silveira, Deífilo Gurgel, Eulício Farias de Lacerda, Jaime dos G. Wanderley, Jaime Hipólito, Joanilo de Paula Rego, João Batista Pinto, Lenine Pinto, Luiz Carlos Guimarães, Luiz Rabelo, Newton Navarro, Nilson Patriota, Oswaldo Lamartine, Sanderson Negreiros, entre tantos outros.

Thiago Galdino nasceu em 1993, em Mossoró (RN), cidade onde reside. É autor da novela policial "Suspeitas de um mistério" (Ed. Multifoco, 2012) e organizador da coletânea "Novos contos potiguares" (CJA Edições, 2017), além de ter coordenado a antologia poética "Quarenta em quarentena" (Edição do Autor, 2020), em formato de e-book. Colabora em jornais, revistas, portais literários e mantém o Canal Potiratura, no Youtube. Desde de 2015, é sócio efetivo do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP). [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo