Muirakytan K. de Macêdo, um intérprete do Seridó

Por Lívio Oliveira

Quem quiser entender um pouco da alma seridoense tem que ler, com obrigatoriedade, as obras de Muirakytan K. de Macêdo, um dos maiores INTÉRPRETES DO SERIDÓ que existem, dentro e fora do mundo acadêmico. Ler Muirakytan é sentir um tempo não-tempo e ver um espaço não-espaço. É perceber a historiografia poética das ancestralidades abissais. Muirakytan faz-nos compreender que a terra veste a mesma identidade do seu povo. E que essa identidade é também magia e sonho, a própria interface mítica ou mitológica que o discurso pode conceber. E que o Seridó tem expressão identitária acima de qualquer suspeita histórica ou imaginativa, porque suplanta todas as versões possíveis, fazendo com que nunca se perfaça a derradeira, a última. Sempre será a penúltima. Sempre será tentativa, mesmo que a mais aperfeiçoada e bem elaborada.

A minha assertiva já havia sido comprovada quando Muirakytan nos trouxe o seu “A Penúltima Versão do Seridó – Uma História do Regionalismo Seridoense”, obra publicada pelas edições do Sebo Vermelho, de Abimael Silva, em 2005. Ali, o historiador caicoense já demonstrava a pujança do seu texto e a sua extrema capacidade de pesquisador. Aquela obra nos trazia fartos elementos acerca da “personalidade de uma região”, como destacado pelo professor do Collège de France, Nathan Wachtel.

Alguns nomes das letras potiguares, não somente da historiografia, já penetraram através das veredas do Semiárido seridoense e foram buscar belezas, verdades e raridades de lá. Trouxeram-nos alimento para o entendimento profundo daquelas profundas terras que às vezes não têm fim. Têm início, isso têm. Muirakytan e os outros (re)construindo essas origens, colocando mais pedras naquelas cercas e cercanias ancestrais, mundos apartados que nem o “gado vacum” quando precisa crescer e aparecer.

São os barulhos que se achegam do horizonte cheio de mormaços. E os silêncios agudos e eloquentes. Tudo atravessando dum lado ao outro da região, cimeira até o baixo, oriente ao ocidente, tudo está nos livros que o entendendor caicoense nos traz. E ele interpreta e nos faz entender junto, que é o afazer dele. Moacy Cirne já afirmava, convicto como bom seridoense que foi: “E eis que a História se faz análise, e eis que a História se faz rigor, e eis que a História se faz literatura. Ousamos dizer, sem medo de errar: A penúltima versão do Seridó é um dos livros mais importantes já publicados em nosso Estado. Em se tratando de História, pura e simplesmente, talvez seja o maior de todos eles. Ou um dos maiores, já que não podemos esquecer, por exemplo, de Índios do Açu e do Seridó, de Olavo Medeiros Filho. Claro, mais dois ou três títulos poderiam ser citados, mas ficamos por aqui.”

Ocorre que Muirakytan, com esse nome tão caracterizadamente indígena e que relembra que no início esteve o índio, depois desalojado (“A conquista do sertão não foi pacífica”, diz ele sobre o embrionário “Sertão do Acauã”, depois Seridó), não parou por ali. Muirakytan não parou de jeito nenhum. E chegou até este ano de 2015 com uma nova obra-prima, uma nova e valiosa versão do Seridó. Não se pode afirmar cabal e exatamente que é uma continuação ou mero desdobramento de “A Penúltima…”, mas se vê que não será a última. Jamais será a derradeira das versões. Até mesmo porque o Seridó nunca tem fim, como já dito acima e alhures. E repetido por mil ecos entre as pedras e sóis.

E a obra aparece em forma de “Rústicos Cabedais – Patrimônio e cotidiano familiar nos sertões da pecuária (Seridó – Séc. XVIII)”, livro construído fisicamente pela Flor do Sal e pela Editora da UFRN. A porta de entrada nesse incomensurável patrimônio está logo na capa maravilhosa, na fotografia mágica de Giovanni Sérgio, que nos faz ingressar num mundo inusitado e cheio de surpresas. As portas azuis da casa com seus telhados e sótãos rangentes. E o Seridó mais adiante. E dentro. E fora, no entorno.

A casa com as portas azuis da História, as que não deixam de ser também as portas, portais ou porteiras-cancelas da imaginação e da poesia, que afirmam a existência de gentes com identidade e com suas faces queimadas de sol e vincadas pelo trabalho intenso sobre a terra que deu o ouro branco do algodão, no chão e pintando o céu com intensidade das nuvens que também são gado e também são sonhos. Não é qualquer coisa um livro que remonta (a) uma (quase ou plena?) civilização.

Muirakytan faz isso, com ousadia e firmeza, decisão e resultado. O resultado é o retrato da cultura. O caldo da Cultura do Sertão, Sertões, profundidades, riquezas, patrimônios materiais e imateriais, homens e mulheres (não somente das elites, mas do povo e do barro e do vento quente que todos alcança), famílias e suas casas, símbolos que a pesquisa histórica e antropológica contada nos remete à compreensão mais abrangente. Patrimônio que é a continuidade do homem, o que viveu e o que vive sobre o solo. E aquele que está por vir. E venham todas as versões, até o fim que nunca há. Esse livro não é o último, mas é mais um começo, mais um ângulo, mais uma porta, mais um caminho para a compreensão do impressionante Seridó.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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