Mulher e cidade no Brasil (um pouco de história)

Por Antonio Risério
NO TERRA MAGAZINE

Historicamente, as mulheres viveram as cidades em outros planos e dimensões, que não os da objetividade construtiva da arquitetura e do urbanismo. Além disso, o modo como a mulher existe e se move na cidade é diverso do modo masculino de ser e se conduzir no espaço urbano. E não digo isso em termos vagos, no sentido de que são distintos os modos masculino e feminino de lidar com o mundo. Esta conversa pode ser mais objetiva. As mulheres sempre se plantaram e se moveram, no espaço urbano, de forma diferente da maneira dos homens. Não são somente as classes ou os grupos sociais que existem de modo específico na cidade. Os sexos, também.

Mas mesmo os sexos são sociologizáveis. As condutas, dentro de um mesmo sexo, não são separáveis da localização da pessoa num determinado ponto da hierarquia social. Vemos isso na história urbana das mulheres no Brasil. É lugar comum a afirmação de que as mulheres brasileiras, durante séculos, viveram isoladas, encerradas no recinto de suas casas. “A dona-de-casa que saísse para fazer compras corria o risco de ser confundida com uma prostituta”, escreve Frédéric Mauro, em O Brasil no Tempo de Dom Pedro II. Mas observações sobre o enclausuramento feminino, no Brasil colonial e mesmo imperial, aplicam-se somente aos círculos da elite social e política.

Se a regra, para as mulheres ricas, era a indolência, a inatividade propiciada pelas mucamas ou pelos escravos, a regra, para as mulheres pobres, era outra. Elas tinham de batalhar, por serem escravas, para tentar comprar a própria alforria, para se sustentar e à sua família. É certo que algumas negras se tornaram senhoras de casarões onde tinham vivido como escravas. Mas não estava aí o comum da vida na sociedade escravista brasileira. Ali, as brancas ricas, com raríssimas exceções, viviam praticamente enclausuradas. As mulheres do povo, ao contrário, viviam na rua. Gastavam suas energias ao ar livre. Frequentavam mercados e chafarizes. E, aqui e ali, podiam se ver envolvidas em – e até, às vezes, comandar – iniciativas de alto relevo cultural.

Já em Casa-Grande & Senzala, Gilberto Freyre fala do “isolamento árabe” em que viviam as sinhás (principalmente, nos engenhos) e de sua “submissão muçulmana” aos maridos. Ao passar do engenho para a cidade, a realidade permanece praticamente inalterada. “O patriarcalismo brasileiro, vindo dos engenhos para os sobrados, não se entregou logo à rua; por muito tempo foram quase inimigos, o sobrado e a rua. E a maior luta foi travada em torno da mulher por quem a rua ansiava, mas a quem o pater familias do sobrado procurou conservar o mais possível trancada na camarinha”, escreve o mesmo Freyre, em Sobrados e Mucambos. Sinhás e sinhazinhas continuaram trancafiadas, entregues aos “cafunés afrodisíacos” das mucamas – que, para Roger Bastide (“Psicanálise do Cafuné”), possuíam claro aspecto lesbiano.

Ainda na expressão de Freyre, sobrados eram “quase-conventos”. Para ele, o homem, no regime patriarcal, marca o mais claramente possível a diferença entre os sexos. O sexo forte e o sexo fraco nada teriam em comum. Sob a distinção aguda, a “raiz econômica: principalmente o desejo, dissimulado, é claro, de afastar-se a possível competição da mulher no domínio, econômico e político, exercido pelo homem sobre as sociedades de estrutura patriarcal”. Mulheres deveriam ser antônimos de ação, iniciativa, energia. E nossa sociedade patriarcal gerou dois tipos femininos básicos: o da criatura “franzina, neurótica, sensual, religiosa, romântica” – e o da senhora gorda, prática e caseira. Ambas, longe do bulício das ruas. É claro que houve exceções – mas exceções são exceções. O comum, mesmo dentro de casa, era que a mulher nem sequer aparecesse quando houvesse visitas de estranhos – sumiço que só começou a ser superado no Rio de Janeiro, no tempo da Corte.

Escrevendo em 1807, Rodrigues de Brito (A Economia Brasileira no Alvorecer do Século XIX) aponta, entre os fatores do nosso atraso, “a reclusão do sexo feminino”. Defende ele a introdução, em nosso meio, “dos costumes das nações mais civilizadas da Europa, onde o belo sexo se ocupa em vender nas lojas e no exercício de todas as artes”. Acha que isto duplicaria “a soma das riquezas anualmente produzidas” – “e eu ouso crer que as suas das mulheres virtudes não perderiam nada na livre comunicação e trato civil dos homens; antes a maior independência, em que ficariam a respeito deles, as preservaria dos perigos, a que expõe a necessidade. Além disto o hábito do trabalho ativo lhes daria uma constituição mais vigorosa e animada; pois vejo a maior parte das senhoras definhar em moléstias nervosas, procedidas da inação e enjoo, em que vivem”.

Para incrementar a comunicação intersexual, Brito reivindica ainda, para a Bahia, a implantação de um passeio público e o fim do muxarabis, que herdamos da arquitetura árabe. No seu entender, os muxarabis “obstam à civilização, escondendo o belo sexo ao masculino, para aparecer a furto sempre envergonhado. A destruição deste esconderijo mourisco poria as senhoras na precisão de vestir-se melhor para chegarem às janelas, a satisfazer a natural curiosidade de ver e serem vistas, e assim familiarizando-se com o sexo masculino, não olhariam como virtude o insocial recolhimento, que as faz evitar os homens, como a excomungados”. O problema não estava nos muxarabis, claro, mas na dominação patriarcal. E as mentalidades ainda demorariam a mudar.

Freyre: “O tipo mais comum de mulher brasileira durante o Império… Muito boa, muito generosa, muito devota, mas só se sentindo feliz entre os parentes, os íntimos, as mucamas, os moleques, os santos de seu oratório… desinteressando-se dos negócios e dos amigos políticos do marido, mesmo quando convidada a participar de suas conversas. Quando muito chegando às margens sentimentais do patriotismo e da literatura. Alheia ao mundo que não fosse o dominado pela casa… Ignorando que houvesse Pátria, Império, Literatura e até Rua, Cidade, Praça”. E mais: “Nunca numa sociedade aparentemente europeia, os homens foram tão sós no seu esforço, como os nossos no tempo do Império; nem tão unilaterais na sua obra política, literária, científica”.

Mas enquanto as mulheres brancomestiças da elite se fechavam em suas casas, bem outra era a vida de pretas, mulatas e mesmo brancas, mas todas pobres, respirando o ar das ruas e praças das cidades, que ocupavam com seus risos e afazeres, em movimento tão colorido quanto incessante. Em A Bahia no Século XVIII, Vilhena fala, por exemplo, das quitandas (palavra de origem banta) de Salvador, “nas quais se juntam muitas negras a vender tudo o que trazem”, de peixes a hortaliças e “carne meio assada”. Fala das “negras regateiras”, negras-do-ganho ou ganhadeiras – vendedoras ambulantes, tanto cativas quanto libertas, as primeiras trabalhando para suas senhoras. Fala, ainda, das aguadeiras, das negras que trabalhavam carregando água das fontes, dos chafarizes.

Além do trabalho, a festa. O mesmo Vilhena se manifesta contra o fato de que “pelas ruas e terreiros da cidade façam multidões de negros, de um e outro sexo, os seus batuques bárbaros, a toque de muitos e horrorosos atabaques, dançando desonestamente e cantando canções gentílicas”. E não era diferente o que se via em outras cidades brasileiras. Em Minas Gerais, no mesmo século XVIII, como nos mostra Luciano Figueiredo, em O Avesso da Memória. Lembra ele que ali, como em outras regiões da América Portuguesa, o pequeno comércio era atividade essencialmente feminina, “envolvendo mulheres pobres de variada cor”, na função de vendeiras ou de “negras de tabuleiro”. Outras sobreviviam do pequeno artesanato doméstico. Mas o que importa sublinhar é que, em nenhum dos casos, a rua era espaço a ser evitado.

Enfim, enquanto sinhás e sinhazinhas cultivavam (ou eram obrigadas a cultivar) a reclusão e a indolência, não projetando o seu olhar para além do âmbito estreito da casa e da família, vamos encontrar mulheres menos abastadas e mesmo pobres, quase sempre pretas e mulatas, engajadas em iniciativas e movimentos de relevo, em dimensões políticas e culturais. Concordo por isso mesmo com Freyre, quando ele diz que “foi no escravo negro que mais ostensivamente desabrochou no Brasil o sentido de solidariedade mais largo que o de família”.

No caso das mulheres, logo nos vem à mente a figura de Luíza Mahin (mãe do poeta e advogado abolicionista Luiz Gama), que se envolveu em conspirações e movimentações dos chamados negros malês, com desfechos em revoltas urbanas violentas e mesmo sanguinárias na Bahia, durante as primeiras décadas do século XIX. Além do campo mais propriamente político, mulheres negras e mestiças tiveram presença ainda mais forte no espaço religioso. Dos primeiros calundus de que temos alguma notícia, no Brasil, parte deles era coisa de mulher.

Em O Candomblé da Barroquinha, Renato da Silveira fala de calundus que nossas mulheres tiveram a coragem de abrir, em tempos escravistas. Antes de mais nada, a definição: calundu “vem do quimbundo kilundu, derivado de kulundûla (herdar), ‘alusão ao modo de transmissão'”. Mas, também, pode ter vindo de kalundu, termo encontrável tanto em quicongo quanto em quimbundo, implicando a realização de um culto para os espíritos. O que interessa aqui, no entanto, é outra coisa. É tomar conhecimento de que, na passagem do século XVII para o XVIII, numa chácara nas vizinhanças da Vila de Rio Real, na Bahia, existia um templo desses. Era o calundu de uma escrava chamada Branca. Em Minas Gerais, nas cercanias de Sabará, primeira metade do século XVIII, havia o calundu de Luzia Pinta, que enfrentou um processo da Inquisição. Adiante, em inícios do século XIX, mulheres organizaram o primeiro terreiro de Ketu do Brasil, o Ilê Omi Axé Airá Intilê – matriz da qual nasceram os grandes terreiros jeje-nagôs do Brasil. Mas não quero me estender demais. Em outro artigo, volto ao assunto.

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