Mulheres a granel

De “O Anjo Azul” (1930) a “Sex and the City 2” (2010), o cinema mudou várias vezes a imagem da mulher

Por: José Augusto Lopes, no Diário do Nordeste

Em 1930, o nazismo já começava a enraizar sua malignidade na realidade germânica, mas um dos fatos mais comentados do ano, na Alemanha, foi o lançamento do filme “O Anjo Azul” (foto), um clássico que projetou internacionalmente o diretor Josef Von Sternberg e a atriz Marlene Dietrich. A bela Marlene, então com 28 anos, protagonizou à perfeição a vulcânica e calculista cantora de cabaré Lola-Lola, por quem um sisudo e maduro professor se apaixona, ao ponto de transformar a própria vida em um inferno de humilhação e decadência.

Passados 80 anos, um enfoque bem diverso é concedido à imagem da mulher em “Sex and the City 2”, realização cinematográfica que já rendeu mais de 400 milhões de dólares ao redor do mundo, mas ainda assim não passou pelo crivo da crítica feminista por sua pretensa abordagem desrespeitosa e fragilizante da condição feminina.

Lola-Lola, em “O Anjo Azul´ era uma pessoa de caráter notoriamente ambíguo, mas dotada de forte personalidade, posicionando a imagem da mulher como fatal e inelutável manipuladora dos sentimentos masculinos. Esse tipo de personalidade dominou, por algumas décadas, a imagem feminina no cinema, através de marcantes personagens, respaldados em fortes desempenhos de grandes atrizes como Bette Davis (“Servidão Humana”), Katharine Hepburn (“A Mulher do Dia”) e Joan Crawford (“Johnny Guitar”).

As antigas heroínas de Hollywood, mesmo quando assumidamente românticas e adocicadas como Doris Day (“Romance em Alto Mar”) ou June Allyson (“Quatro Destinos”), sempre levavam a melhor sobre os companheiros masculinos, no mínimo ganhando o beijo assinalador do tradicional “happy-end” (final feliz). Tal desenlace realçava, no fundo, a submissão dos homens, geralmente vividos por belos galãs como Tyrone Power e Robert Taylor, a casamentos onde o amor e a fidelidade supostamente durariam para sempre.

Poderosas, ou simplesmente amorosas, as antigas mulheres do cinema sempre deixavam transparecer um cerne de superioridade e independência, onde podiam contar pontos positivos tanto os dotes físicos de beleza de uma Hedy Lamarr (“Sansão e Dalila”) como a expressividade do talento invulgar de uma Olivia De Havilland (“Tarde Demais”).

Suposto modernismo

O sucesso de “Sex and the City” no cinema já decorre de seu êxito anterior como série de televisão. Muitos se interessaram pelos entreveros do “mundinho” de quatro inseparáveis amigas: Carrie (Sarah Jessica Parker), Charlotte (Kristin Davis), Samantha (Kim Cattrall) e Miranda (Cynthia Nixon), todas com problemas pessoais que vão da instabilidade no ambiente de trabalho à chegada da menopausa em meio a intensa atividade sexual.

Escrito, dirigido e produzido por Michael Patrick King, “Sex and the City 2” não tenta camuflar seu caráter escapista de puro entretenimento. Filmado parcialmente no Marrocos, embora a ação transcorra em um emirado árabe, a produção enfatiza cenários exóticos e personagens extravagantes, talvez com o propósito de ressaltar o lado “fashion/ocidental” das figuras centrais.

Na atual sequência, Carrie finalmente está casada com o afetado “Mr. Big” e questiona, de leve, a idéia de comportar-se como uma esposa convencional, enquanto a ingênua (abobalhada?) Charlotte, agora também casada e mãe de dois filhos, não tem coragem de revelar, nem mesmo às melhores amigas, que os encargos do matrimônio são bem mais difíceis de administrar do que anteriormente supunha seu romantismo. Já a ardorosa Samantha encontra no sexo selvagem a válvula de escape para fugir dos calores da menopausa, ao mesmo tempo em que a contida Miranda se enreda em problemas enfrentados no trabalho.

Fórmula de sucesso

O sucesso entre o público feminino (geralmente 80% dos espectadores são mulheres) deve-se a uma fórmula já bastante utilizada no cinema e na televisão, enfocando amigas que se identificam entre si, dão palpites sobre a vida das outras e às vezes discutem “seriamente” sobre questões de relacionamento amoroso. A principal acusação feita a “Sex and the City” é que suas heroínas parecem pouco dispostas a um mínimo de raciocínio coerente sobre seus próprios problemas, quando não são obcecadas por homens ou pela aparência física. Faltaria a essas personagens, apesar de posarem como modernas e até certo ponto liberadas, a determinação da antiga “femme fatale” do cinema, consciente manipuladora de homens de personalidade domável, ou a sensibilidade rósea das mocinhas casadoiras dos velhos musicais, sempre a postos no intuito de fisgarem “para todo o sempre” o homem de suas vidas.

Discordâncias à parte, existe um ponto a respeito do qual não se pode tergiversar. Dos tempos da insensível Lola-Lola de Marlene Dietrich, passando pelas poderosas mulheres vividas por Bette Davis e Katharine Hepburn, até os tipos estereotipados de “Sex and the City”, os padrões de comportamento passaram por mudanças radicais. As preocupações triviais e explosões de temperamento de Carrie, Charlotte, Samantha e Miranda fazem parte de um mundo cada vez menos afeito à profundidade e à seriedade em qualquer tipo de relacionamento. Sob esse aspecto, homens e mulheres hoje se nivelam, movidos por uma neurótica competitividade. O cinema, feito sob medida para agradar ao grande público, cumpre apenas seu papel histriônico e, justiça seja feita, até mesmo tenta ser lisonjeiro em relação ao tema.

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