Mulheres vestidas de negro

Na sexta-feira passada liguei para o querido Luiz Eduardo Carneiro – amante da música, destacadamente da Bossa Nova (gênero em que é expert, possuindo um amplo e excelente acervo) – amigo que eu gostaria de ver e ouvir sempre, mas que a vida e os dias corridos têm impedido maior proximidade, antes bem mais assídua na Confraria Letra & Música, de Ary Ramalho. Começamos a conversar ao celular, numa ligação sonoramente perfeita, sem ruídos, e só após uns cinco minutos foi que L.E.C. me informou que se encontrava na histórica e bela Sevilha, capital da Andaluzia, terras de Espanha.

Num segundo instante, eu já situado, relembramos que ali foi um dos lugares em que tomou forma a poesia cabralina, onde o grande poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto se fixou por um tempo de atividade diplomática e poética, escrevendo parte importante da sua obra, como em “Sevilha andando” e “Andando Sevilha”. Pedi e Luiz Eduardo passou a me narrar o que via nas ruas e becos estreitos da cidade espanhola, quatro ou cinco horas de fuso distante. Descreveu-me as mulheres em trajes negros, portentosas, ostentando tradições seculares relativas às comemorações da Semana Santa. Num breve delírio, fiquei imaginando as pernas torneadas das espanholas deslizando pelas meias escuras, até acertarem os seus pés delicados e firmes nos “tacones”, que guardam parcelas dos sonhos masculinos.

Na noite daquela mesma sexta-feira em que tive essa conversa com Luiz Eduardo, fui presenciar o esperado retorno de um grupo vocal de Natal que considero excelente: o Octo Voci. No programa, um concerto de Páscoa, a ser realizado juntamente com o quarteto de cordas Ensemble Potiguar (esse, composto por dois violinos, viola, violoncelo e contrabaixo), além das participações especiais de Igara Cabral (cravo/órgão), Ezequias Lira (violão), Eliel Espíndula e Maíra Soares (Percussão). Todos, maestro, cantores, cantoras e instrumentistas, todos estavam reverentemente vestidos de negro na Capela do Campus da UFRN.

O contraste do negro das vestes com os painéis em cores e tons pastéis por trás do grupo e ao fundo do altar ficou elegante. E muito agradável aos olhos e ouvidos foi ver e ouvir esse grupo na sua rentrée na cena musical erudita potiguar (e, certamente, também com repertório popular no futuro), com amplas perspectivas de altos voos, pelas destacadas qualidades que o grupo já demonstrou no passado e que, certamente, apresentará nesse novo momento.

Do excelente Octo Voci me impressionei especialmente com as vozes femininas das sopranos Ianne Maria, Sabrina Fernandes e Thaise Matias, das contraltos Kalenne Fonseca e Raquel de Souza, todas vozes vestidas de negro e entoando a beleza intensa das canções sacras de Eli-Eri Moura, Giovanni Battista Pergolesi, Dietrich Buxtehude e Danilo Guanais. Evidentemente que estabeleci imediata relação entre as concentradas cantoras líricas na Capela universitária e as introspectas sevilhanas de negro a flanar por uma cidade cheia de rigores místicos e fascínios históricos. E a música e a poesia eram o cimento de tudo isso. E a religiosidade mística era a origem. E a plenitude feminina também sensual, era a realidade lateral, porém jamais desprezível.

Ao final do dia pude perceber: o solene respeito religioso em tecidos escuros, lá e aqui, não impunham o luto do sofrimento e da dor, antes o aliviavam e o enterneciam, uma vez que a música invadira os espaços arquitetônicos e do pensamento, a arte em negro soprava, no contraste com os tons pastéis da igreja e o dourado antigo da cidade espanhola, e ainda sob um pleno luar que alimentava as duas cidades distantes, a nossa e aquela outra, de luz e de esperança, tudo compondo um cenário geral mental que somente revelava beleza e sonho, que perduram na retina e na memória.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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