O mundo sempre foi um circo de horrores

Foto de abertura: “A nau dos loucos”, de Hieronymus Bosch

Jornalistas vivem de notícias. Fazem e consomem isso insanamente. Alguns acabam ficando com a sensibilidade embotada diante da avalanche de textos trágicos que produzem ou acompanham diariamente. Outros preservam a capacidade de indignar-se a cada manhã, buscando não naturalizar o que é cruel e injusto.

O problema é que o absurdo e as injustiças do mundo não tem fim. Sim, alguém pode lembrar com razão: sempre foi assim. Na verdade não aumentou e nem diminuiu. É só consultar a história. O que ocorreu é que com a massificação da comunicação temos a impressão de que a barbárie cresceu. Não creio, apenas passamos a tomar conhecimento dela mais rápido e, com a internet, em tempo real e planetariamente.

Não vai aqui nenhuma crítica a quem já não se comove com a tragédia do próximo e do distante. Viver e estar atento ao circo de horrores cotidiano não é para qualquer um. E acredito que para muitos a opção seja anestesiar-se – pelo menos parcialmente – diante do real para não desenvolver alguma neurose e, no limite, enlouquecer.

“Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.” (CDA)

Outros elegem um “baralhinho”, como eu e um amigo escritor chamamos as válvulas de escape que se escolhem para aguentar o dia-a-dia. Pode ser a arte, a bebida, a comida, as religiões e drogas lícitas e ilícitas, o trabalho, o consumismo, o sexo, o  amor. Ilusões cada vez mais necessárias nesses loucos tempos.  O meu “baralhinho” é a arte. Teatro, cinema, literatura, artes plásticas, música, dança etc. E escrever. Sem isso eu seria um outro. A desse meu amigo citado acima é a literatura.

anjos

A Queda dos Anjos Rebeldes, de Pieter Bruegel, o Velho, cujo tema foi retirado de uma passagem do Livro do Apocalipse 12:9 (“E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele.)

Os últimos dias foram particularmente cruéis e motivaram-me a essas reflexões. A chacina em Orlando; a morte por frio dos moradores de rua em São Paulo; a podridão política brasileira; o assassinato dos índios Guaranis em Mato Grosso; o estupro da jovem no Rio por 30 homens. Essas são notícias que ganham as manchetes, mas tem as “pequenas” tragédias pessoais, invisíveis, por exemplo, de quem está desempregado e enfrenta dificuldades para sobreviver. Ou do ambulante dos semáforos, ruas e praias que viu suas vendas minguarem com a crise.

Ontem, meu amigo jornalista Carlão de Souza escreveu no Facebook, junto com uma foto do livro “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, o seu desencanto com as coisas. “Desanimado, decepcionado com a política, mas cheio de sonhos e esperança em dias melhores. Meu porto seguro continua sendo a literatura que pratico e a que leio sem cessar. Felicidade a todos.”

“Esperança em dias melhores”. Creio que essa utopia deve nos guiar sempre. Porque sem ela entregamos os pontos e nada mais faz sentido.

Comments

There are 4 comments for this article
  1. Anchieta Rolim 17 de Junho de 2016 15:55

    É por essas e outras que estou aqui enclausurado, produzindo feito louco para aliviar as dores dessa vida porra louca. Mesmo assim, é difícil demais. Só espero que haja um bom motivo para entrar em cena novamente. mas, por enquanto, não vejo nem uma luz no fim do abismo.

  2. Ana M. Batista 17 de Junho de 2016 19:48

    O olhar vagueia no oco do mundo.
    A pele mancha o chão cor de dor.
    No momento, o que faz sentido é o ar que respira.
    A pouca energia que lhe resta pulsa em um único pensamento:
    – “A carne é pouca para tantos porcos!”

  3. Luis Sávio Dantas 18 de Junho de 2016 10:10

    O pior Amigo Tácito, é que devemos e podemos politizar a crueldade, Maquiavel, maquiavelicamente nos ensina, e esse ensinamento pode ser usado no sentido de quem a pratica, ou no sentido de quem a critica. ( que é o nosso caso !) . P.ex., Com muita probabilidade, esse massacre na boate em Orlando, foi “apenas”, uma peça de marketing, para tentar eleger a Sra. Clinton, vassala mor do grupo que domina o mundo. Você já viu no youtube, a entrevista dessa senhora, no fechadíssimo CFR ? . O mais cruel de tudo é que, Trump ou Clinton, são duas opções fascistas.

  4. Ana M. Batista 18 de Junho de 2016 10:27

    Ou, melhor: “- Há pouca comida para tantos porcos!”

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