Mundo-tarde

[Rembrandt+-+Abraham+and+Isaac+[1634].jpg]

Nel mezzo del cammin di nostra vita…” (Dante Alighieri)

A palavra concebi
da noite-estalo
e me rompeu, na volta:
o mundo queimado
e esquecimentos
consentidos −
vazados no chão.
*
E nada me trouxe no embrulho
[molhado]
a não ser uma falsa camisa
branca e o barro vermelho
para tingi-la.
*
O sono etéreo
acompanhou,
sorte firme,
em meio às árvores
plenas: pássaros
rotos de infância.
*
Estremecimento em voz…

…e rezou solteiro o vento.

*
Houve um tempo
em que os muros
eram fáceis.
Era fácil
caminhar incauto
sobre os tijolos
colados: argamassa.

*
E transpô-los.
E reinar.
*
Conquistar (tão-só) o mundo.
*
Fácil, também,
nadar no rio,
mar-e-rio,
sem medo do Poço
do Dentão.
*
E na bacia de Ágata.
*
Ingênuo suportar
que o hoje passeia
em barcos
e nesse mar:
os consentimentos
esquecidos.
*
Corredores de pedra à fortaleza.
*
Durou tempo a leitura das tábuas
do menino profeta.
E a dançarina surda partiu,
levando o pacote de leite
e a carta do pai.
*
E o fluido estocou no céu da boca
seca, então…
*
Nem tudo é uma matinê no clube horizontal,
alvirrubro,
nem um mergulho
de cabeça no tanque da construção.

*

Mas, é. E um desatino…
*
O hoje por aí,
o cheiro de castanhas
torradas na lata
espalhado na memória
embotada de areia
e pedra.
*
E a hora fosca.
*
O hoje nada sabe
do ontem
e da foto
do Baldo
e a lona rasgada
do circo
de Orlando Orfei.
*
Talas nas veias
e o sino sina
na Igreja de São Pedro: Sina…Ssss! Sina…
*
Não me vi por ali.
*
Assovios de prata
e vidro
tingiram de sereno
meu tempo:
ludo real
e peças de xadrez:

− Sai daí, menino!
*
(algo por vir e doze passos:
na escola azul a que eu tive,
embebido de álcoois,
culpa-e-medo):

− Pelo sinal da Santa Cruz…

− Pai nosso…

− Pão nosso…

− Ave- Maria…

− Santa-Maria…

− Não nos deixeis cair…

− Mas, livrai-nos do mal…
*
Degredos: avisos de deuses…
*
O mais certo.
O mais certo, diz-me então,
sopro atlântico em reviradas:
evitar a dor mareada
e o dia passado que se inaugura.

———

◊P.S. A obra acima, de Rembrandt, é intitulada “O Sacrifício de Isaac” (óleo sobre tela de 1635), estando hoje no Museu Hermitage, São Petersburgo, Rússia.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 8 comentários para esta postagem
  1. Lívio Oliveira 30 de março de 2012 13:38

    Liamemos, Nina.

  2. Nina Rizzi 30 de março de 2012 12:47

    essa criatura poética, nasce numa fortaleza: sê forte.
    mas isso é apenas um liame. que bom.

    um beijo, lívio.

  3. Lívio Oliveira 29 de março de 2012 21:57

    Lendo Jairo, mestre, aposto ou vocativo, aposto que é do bem. “Dimmi, maestro mio, dimmi, segnore (…)”.

  4. Jairo Lima 29 de março de 2012 18:54

    Leio Lívio, mestre, e caddi como corpo morto cade.

  5. Lívio Oliveira 29 de março de 2012 15:10

    Brigadão, Danclads, pela delicadeza do comentário.

  6. Danclads Lins de Andrade 29 de março de 2012 14:54

    E no meio da vida, memórias de um ontem que o hoje não conhece. Aplausos!!!

  7. Lívio Oliveira 29 de março de 2012 14:08

    Mestre Jarbas, vou experimentando, vou me atrevendo. Não sei se deveria alimentar, ainda, esse meu “impossible dream”. Coisa de gente inquieta…afinal…

    Obrigado pela atenção de sempre.

  8. Jarbas Martins 29 de março de 2012 10:25

    O Menino Experimental Lívio Oliveira, construtor de palavras, sonhos e nuvens impossíveis – entra em cena. Aplausos para este mágico precoce.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo