Murilo e a cidade

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Lendo “A peruca de Tchekhov”, crônica de Luis Henrique Pellanda, que aparece em seu livro mais recente, “Asa de sereia” (Arquipélogo Editorial), deparo com um forte verso de Murilo Mendes (foto), que inspira todo o relato. Assim: “Não vejo ninguém vivo nesta cidade enorme”. O verso é adequado para um tempo de tantas máscaras e tanta correria, um tempo em que mal nos olhamos nos olhos, preferindo o olhar transverso e fugidio. Um tempo em que não temos tempo para os outros, mal temos tempo para nós mesmos. É a cidade que está vazia, ou os rostos que a percorrem?

Penso, então, na atualidade de Murilo, um poeta esquecido, embora seja também um dos maiores do século 20. Com cuidado, mas também com algum medo _ a poesia, que é susto e surpresa, sempre desperta medo – percorro lentamente sua “Poesia completa e prosa”, editada pela Nova Aguillar. E me detenho em seus “Murilogramas”. A Bach, Hölderlin, Leopardi, Mallarmé, Antero, Pessoa, João Cabral, Drummond. Há, ainda um “Murilograma” ao Criador e outro a Jesus Cristo. Com todos, Murilo conversa numa lentidão que não exclui a exatidão. A todos retrata, com o cuidado de quem porta as mais finas luvas.

Fico a ler os “Murilogramas” e me dou conta de que esta é, talvez, a diferença da poesia do século 20 para outra que, nos dias de hoje, se quer mero jogo intelectual. Escrevendo poemas, Murilo dialoga. Os interlocutores comparecem, estão ali. Pode ser Bach, “esfera em rotação”, pode ser Nerval, que “vomita a autora feroz”, pode ser Bandeira com sua “poesia antojada”, ou Anibal Machado, que nasceu “para driblar a guerra”. Em cada um deles, Murilo agarra o que encontra de melhor. Não escreve para polemizar, ou para demolir, escreve para se aproximar e para dar a mão. Para estar perto. Posso dizer que sua estratégia poética é a da aproximação.

Faz seus desabafos, quando diz ao Criador, por exemplo, que “nunca um nasce/ suficientemente”. Diante dele, resume sua tarefa poética: “Meu trabalho: exceder-me do meu nada”. Sabe seu pequeno tamanho: “Sou tudo menos o universo/ Que emprestate ao homem/ Físico nuclear/ À tua imagem e semelhança:/ Expansionista”. Afirma que é pequeno e é porque é pequeno que se põe a escrever os “Murilogramas”, através dos quais tenta contato com os seres que mais admira. E que vê tão distantes quando estão logo ali.

Quando deparo hoje com grupos de poetas a se baterem como lutadores da meia-noite, penso, pensarei sempre, em Murilo Mendes. Agradeço a Pellanda que, ao me reaproximar de Murilo, se aproxima mais um pouco de mim. As palavras só produzem sentido e espanto porque constroem laços, porque estendem pontes. Por que, ao contrário, nós as usamos, tantas vezes, para nos separar?

Até de Anton Tchekhov, de quem estou sempre perto, um nome perdido no título da crônica de Pellanda, eu me aproximei mais um pouco. Lembra Pellanda que Tchekhov, o dramaturgo, nos ensinou que, se no primeiro ato você mostra uma espingarda pendurada na parede, no próximo terá de dispará-la. Laços, sempre laços, mesmo entre o homem e seus objetos. Mesmo os mais difíceis e até violentos. Que fazem da poesia, do teatro, da arte instrumentos de aproximação. Estridência dos laços, das analogias, dos paralelos: eis o que é viver, e não uma cidade de rostos vazios.

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