O muro e a ponte

Por Lívio Oliveira

Quando eu era um moleque incauto e inquieto (talvez ainda seja), costumava subir no muro comprido da minha casa e passeava de um vértice até o outro como um equilibrista traquinas de circo (nada a ver com deputados e seus risíveis – porém, trágicos –espetáculos). Era uma brincadeira perigosa, arriscadíssima, como outras que eu costumava inventar nas horas infantis e buliçosas. E havia inocência e decência, algo raro nos homens adultos. Mais raro ainda nos políticos. E porque falo sobre a infância, melhor evitar temas obscenos, despudorados.

No entanto, é difícil evitar. A vida é uma atitude política. A escolha pela poesia também o é, mesmo que aquela menina, que via e ouvia atenta um sarau-maravilha lá no Restaurante Bardallo’s, tenha querido me convencer do contrário. Eu só pude dar como resposta ao seu “entendo, mas não aceito” um “aceito, mas não entendo”. Como seria, então, dissociar da política (no seu melhor sentido) a atitude e a escolha quase que subversiva de fazer poesia num mundo como esse? Como não poderia eu afirmar que ao amor à arte se contrapõe o vil sentimento de atração pela guerra de todos contra todos? Os nossos Leviatãs particulares e públicos nos assustam e oferecemos em resposta o escudo da palavra poética e do afeto altruísta e apaixonado pelas edificações artísticas internas e externas, frutos do espírito e do corpo amoroso.

O menino cresceu. E os muros ao redor, também. E lá em cima. E lá embaixo. E em todo lugar. Aqui, onde nos guardamos assustados em condomínios herméticos e assépticos. Ou lá em Brasília, um muro surreal que vai dar em lugar nenhum ou num covil de ratos. Estão muito mais altos, quase inacessível é o acesso ao que há do outro lado. E o pior é que temos medo de olhar e de nos vermos espelhados no muro ou além dele, no outro, de outra cor ou maneira de pensar ou de pisar na grama, mais pesado ou mais leve, dependendo de que sonhos penduramos nas redes cujos punhos alcançam as nuvens branquinhas no azulado céu, porém poluído pelas falsas mensagens e invocações ilegítimas e desrespeitosas ao nome de Deus.

O meu lugar poético é também o meu lócus, minha morada política. É a mais forte e decisiva posição que assumo. É o compromisso com gente que pensa e sente e sonha e acredita na arte e na poesia como eu. E não há como fazer arte e poesia sem pensar naquele menino que andava sobre muros, arriscando a sua incolumidade física e a sua crença de que poderia alcançar sempre a melhor visão e o melhor exercício idílico a realizar, para si próprio e para os outros. Isso, porque eu vejo aquele menino em muitos outros e outras, que ainda alimentam crença em algo a porvir, algo de belezas e de cores múltiplas, de entendimento e paz entre as pessoas, de crescimento das gentes em dignidade humana. Somos pessoas. Nem todos entendem. Somos pessoas. Nem todos querem ouvir. Somos pessoas. Nem todos aceitam. Somos pessoas. Querem brincar conosco?!

Ao tempo em que observo os muros internos e externos da minha vida e da vida dos meus irmãos (“Yo tengo tantos Hermanos”: Atahualpa, Mercedes, Violeta e a América toda), sinto que as pontes podem ser a melhor saída, a melhor solução na arquitetura dos sonhos.  As pontes podem nos levar seguros por sobre caminhos abertos nos mares, rios ou nuvens. Mesmo aquelas em que nos fazem correr nus e com as mãos amarradas, de onde nos querem arremessar, para nos afogar a todas e todos. E terminamos sempre sobrevivendo, apesar de feridos, porque um dia ousamos subir no muro e olhar o que havia do lado de lá. E nos vimos. E vimos o outro. E aceitamos o outro com a cor exata dos seus olhos, pele e alma. E haverá um outro dia. Apenas aceitaremos que ele venha, porque somos pessoas, para podermos atravessar pontes e muros, seguros, seguros, seguros.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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