Ângelo Angolano fugiu de uma guerra para fazer arte em Natal

O menino Ângelo conhecia Porto Amboim, em Angola, como um guia turístico.

Na cidade localizada 260 km ao sul de Luanda, ele corria pelas ruas de terra batida, jogava bola, descobria os primeiros amores, na volúpia adolescente.

Falamos de 1975, ano inicial da Guerra Civil no país africano – encerrada apenas em 2002.

Com a saída abrupta dos colonizadores portugueses, três agrupamentos bélico-políticos de inspiração socialista jogaram os Direitos Humanos para o alto e travaram uma batalha sangrenta pelo poder.

A indústria pesqueira sustentava, e ainda sustenta, a maior parte da economia de Porto Amboim.

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Ângelo rememora tempo de menino em Porto Amboim com emoção;  familiares ficaram em Angola, onde o músico não volta desde 1975

“Quando começou a guerra, muita gente achava que rapidamente a coisa ia se acalmar e que poderia voltar para retomar a vida, com parte do que havia deixado”, diria quatro décadas depois.

Foi o que pensou seu pai, um cabo-verdiano, no dia em que a família se viu obrigada a sair às pressas de casa, sem destino certo.

“Achávamos que nunca ia ter problema mais grave. Era uma cidade pequena, todos nós nos conhecíamos. Mas só que a coisa chegou lá. Tivemos que fugir”.

Até aquele momento, além da escola e das brincadeiras na rua, Ângelo ocupava o tempo com a música, a ponto de vencer concursos em bailes e festinhas, o que lhe garantia fartura em guloseimas.

Seu irmão mais velho, ainda que desacreditasse o talento do jovem, ensinou os primeiros acordes em um violão.

“Quando a coisa fugiu do controle, que ficou insustentável, as pessoas que não estavam com armas na mão resolveram sair da cidade. Fomos para a pescaria, onde as traineiras atracavam para despejar seus peixes. Pensamos que ali estaríamos salvos. Aí meu pai esqueceu os documentos e pediu para meu irmão voltar em nossa casa para busca-los. Eu disse que ia com ele. No caminho, encontramos o dono da farmácia, Sr. Abreu, desesperado, falando: ‘Olhe, vocês tomem muito cuidado que está terrível, difícil de saber como sair de Porto Amboim”.

Conhecer todos os trajetos possíveis bloqueou qualquer covardia.

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Efeito colateral da Guerra Fria, conflito civil angolano foi travado entre 1975 e 2002, com o número de mortos especulados em 500 mil

“Conseguimos chegar em casa e pegar esses documentos. Quando voltamos à pescaria tinha uma turba lá em cima do morro, aos berros, com armas na mão. Vimos que não podíamos seguir. Entramos na primeira pescaria para tentar algum socorro, mas não tinha ninguém. Não sabíamos o que fazer. A sorte é que vinha um barco, uma chata, com remo que fica atrás, de ginga, um tronco, e gritamos. Eles nos viram e gritaram para nadarmos. Nos metemos na água e nadamos. Fomos resgatados por uma traineira. Tinha muito navio atracado ali e o capitão disse que eles estavam resgatando os refugiados. Quando nós subimos num deles, demos de cara com nossa família”.

Foi a sorte de Ângelo Alexandre Monteiro, transmutado aqui no Brasil em Ângelo Angolano, cantor e violonista morador de Natal (RN) desde 1984, após um périplo pelo Estado de São Paulo.

Semana passada estive no Recanto do Guerreiro, como consta em uma placa em sua casa na Vila de Ponta Negra, um lugar aromatizado por pés de acerola, maracujá, pitanga, graviola, limão, pinha, caju e pimenta malagueta.

Ouvi histórias de um homem que cruzou o Atlântico em busca da sobrevivência.

Casado com a também cantora Silvinha Benigno, ele parava a entrevista a cada dez, quinze minutos para nos brindar com trechos de temas marcantes em sua vida, todas em seu repertório.

Se aquele instante de incerteza na traineira pareceu ‘um raio de susto’, ‘um facho místico’, como sugeriu Djavan em Luanda, a tranquilidade encontrada na esquina da América do Sul contrabalanceia a cortina aberta do passado.

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Irmão mais velho ensinou primeiros acordes ainda em Angola; das vitórias em festinhas na terra natal ao primeiro contrato com um bar em Piracicaba/SP, um longo percurso transformou o menino em homem feito

Na Terra de Santa Cruz

Após espreitar a morte em Porto Amboim, Ângelo, seu pai, a madrasta e seis irmãos, entre legítimos e de criação, fizeram escala em Portugal, antes de desembarcar para algumas semanas no Senegal, onde mora parte da família paterna.

De lá, rumaram para Cabo Verde, terra de origem do pai, um conjunto de dez ilhas então desabitadas até a chegada dos portugueses e a experiência com o tráfico de seres humanos, no século XV.

Um breve retorno ao Senegal e, no dia 21 de fevereiro de 1976, chegaram ao Brasil.

“O que estranhei mesmo foi a alimentação. Eu estava acostumado ao meu funge [espécie de pirão de mandioca], ao meu feijão de óleo de palma [como os angolanos chamam o dendê], a minha moamba de ginguba [Frango cozido com pasta de amendoim e couve]. Aqui eu descobri muito arroz, feijão, macarrão. Levei um tempo para me adaptar”.

Botucatu, Santo André, São Manuel e Piracicaba, cidades paulistas acolheram aquela família incompleta – tios e irmãs ficaram em Angola.

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Em Piracicaba (SP), Ângelo Alexandre Monteiro, 55 anos, começou a tocar em bares e fez nome no futebol, com seu chute potente de perna esquerda

Sem dinheiro no bolso e amigos importantes, Ângelo colocou a cabeça pra funcionar.

Ou melhor, os pés, pois o futebol seria sua primeira fonte de renda em solo brasileiro.

“A canhotinha era bem forte, bem potente. Eu era chutador de meia distância”.

A camisa dez de um time piracicabano veio na sequência.

Uma grave contusão no próprio pé famoso, no entanto, abreviaria a carreira de boleiro e o faria correr atrás de um antigo sonho: o de viver da música.

“Não podia ouvir música, sempre que ouvia eu ia ver o que que era. Então eu cheguei em um bar com um violão e entrei. Pedi uma cerveja e sentei para ouvir o trio, que achei muito bom. Meia hora depois eles anunciaram um intervalo, mas falaram: ‘Nós temos na casa um músico. Nós não o conhecemos, mas se está de violão é músico’. Eu nunca tinha feito isso de cantar e tocar em público. Cantava nas rodinhas e festinhas de amigos”.

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Ângelo Angolano em ação no Mormaço, um dos bares em que costuma tocar com frequência na capital potiguar; repertório tem de tudo, de bossa nova a soul music: “Meu carro-chefe é música. Tenho preferencias sazonais. Eu chego na hora e tocou. Sou muito de acordo com o público”

Ao ouvirem Este seu olhar, de Vinícius de Moraes, interpretada por aquela figura imponente, de voz grave, frequentadores do Café 1918 se encantaram – o que levou o dono da casa a assinar contrato com Ângelo.

Era o início de uma longa jornada por palcos Brasil afora.

O chapeiro de uma padaria-lanchonete de um português estava com 20 anos, no dia em que um professor de arte o viu tocar em Piracicaba e fez o convite para cantar em Campinas.

Chegar à metrópole paulista foi questão de tempo.

“Na capital eu via Baden Powell tocar, João Bosco, Toquinho. Isso me fez aprender muito. Não sou um violonista clássico, nem popular, sou só um violonista. O pouco que aprendi veio de fuçar o instrumento e ver essa gente tocar. Tive a sorte de trabalhar em uma casa em São Paulo, chamada Conversa Fiada, onde eu fazia a abertura e o intervalo do grupo Sexo dos Anjos, que acompanhava um monte de cantor de nome. Tinha também o pessoal do Pau-Brasil, que me fazia tocar com eles, me dando força”.

Separações

Nos tempos de escola, já aqui no Brasil, Ângelo percebeu outra semelhança entre os dois países separados por um oceano e unidos pela herança étnico-cultural: o preconceito.

“Tanto aqui no Brasil, como em Angola, tem esse tipo de problema. Aqui eu fui namorar uma menina, acho que ela gostava do meu sotaque, eu tinha uns 18 anos de idade. Éramos amigos de uma turma de escola. A mãe dela disse que ‘pra ser amiga da minha filha, sim, mas pra namorar não serve’. Sofri esse tipo de coisa. Mas isso em Angola também tinha”.

Arquipélago lusófono: A rota da escravidão no Atlântico Sul desbancou o poder colonial português ao criar um comércio bilateral entre Brasil e Angola; no século XVII, apenas 15% dos navios que entravam em Luanda vinham da metrópole. O resto saia da Bahia, de Recife e do Rio de Janeiro. Do Conselho de Guerra Português para o luso-brasílico Salvador Correia de Sá e Benevides, chefe da expedição que saiu do porto carioca para expulsar os holandeses de Angola, em 1648: “Porque sem Angola não se pode sustentar o Brasil, e menos Portugal sem aquele Estado”.

É mais um fantasma criado pela escravidão – dado significativo surge ao sabermos que o porto de Luanda via sair 12 mil pessoas por ano, na virada dos 1600, época em que o Brasil inteiro tinha 100 mil habitantes.

“Eu me sinto angolano, não estrangeiro. Angolano-brasileiro. Sei de onde eu vim. Tive tempo de ver coisas lá. Meus filhos [6] e netos [3] são todos brasileiros. Vejo muito rostos familiares. Muitos rostos que ao vê-los me transmitiam esse lado mais amistoso. Isso me fez sentir menos estrangeiro”.

Ângelo percorria a rica noite paulistana, aperfeiçoava a relação com o instrumento de seis cordas e encaixava a voz em tons e temas certos.

E engravidou uma companheira potiguar.

Com ela, veio a Natal em 1984 conhecer sogra, sogro, todo mundo.

A fria recepção e o fim do romance o deixaram sem rumo na Cidade do Sol.

“Mas continuei aqui, fui me virando como dava”.

Seria o início de sua fase mais estável e produtiva.

“Você toca?”

Silvia Benigno, a Silvinha, cantava no extinto Antigamente Drinks Bar, na rua Seridó, perto do histórico Zás Trás, naquele mesmo 1984, ao perceber que sua banda estava atrasada.

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Também cantora e psicopedagoga Silvinha está casada com Angolano, com quem teve três filhos, desde 1984

“Era uma casa fantástica, que nesse dia estava superlotada. Me pediram para segurar o público até a banda chegar. Foi quando ele chegou à frente do palco, aquele negão enorme parou e disse: ‘Posso lhe ajudar?’. Eu disse: ‘Você toca?’. Entreguei o violão pra ele, que começou a tocar. Quando a banda chegou, não quisemos mais que ele fosse embora”.

Desde esse dia, Ângelo e Silvinha estabeleceram um tipo de conexão para além do desejo, numa fértil parceria afetiva e profissional.

Hoje eles cantam juntos em diversos bares de Natal – às quintas-feiras, na Tapiocaria da Vó, na Vila de Ponta Negra; no almoço do sábado, no Quality, também na Vila, onde já tocaram com Oswaldo Montenegro, Renato Barros, do Renato e Seus Blue Caps, e músicos das bandas de Fagner e Alceu Valença; e com frequência no Estilo Sampa, na praça do Gringos, e no Mormaço.

A também psicopedagoga relembra a dificuldade inicial para Ângelo se firmar no mercado natalense – o primeiro contrato foi no bar Carinhoso, na praia dos Artistas.

“Ele tinha que sobreviver, então foi atrás de trabalho. Mas sofreu um boicote que até hoje não sabemos o motivo”.

Casal se conheceu durante uma apresentação de Silvinha, sozinha no palco após a banda atrasar, no extinto Antigamente Drinks Bar, então localizado na rua Seridó, perto do histórico Zás Trás; Ângelo se ofereceu para tocar e conquistou coração da natalense; são 32 anos de parceria completa

Aos 55 anos de idade, Ângelo montou uma pequena escola de violão na Vila de Ponta Negra, chamada QG da Música.

Ali a proposta é transmitir conhecimento para quem quer se divertir com amigos e familiares – nada de profissionalizar instrumentistas.

“Meu carro-chefe é música. Tenho preferencias sazonais. Eu chego na hora e toco. Sou muito de acordo com o público. Quando encontro ele mais frio, mais clássico, eu fico brincado de fazer uma bossa nova, um instrumental. Às vezes, me dá na cabeça de abrir com um Stevie Wonder. Tento sempre fazer algo diferente do que tem por aí”.

O autodidata afirma ter mais de 300 músicas no repertório, todas memorizadas – tem samba, MPB, bossa nova, erudita, cantadas ou somente instrumentais.

Algumas autorais.

A longa conversa que tivemos, entremeada por dedilhadas profusas e melodias entoadas por uma voz grave, algo gutural, mostrou o quanto devemos ficar de olhos atentos para os recantos desta cidade, para onde a luz é pouca e o talento ecoa.

“Música, quem dera, deveria ser disciplina obrigatória nas escolas. Falo de tocar um instrumento. Quem é bom de música vai aprender a matemática e a química muito mais fácil. Porque um acorde é uma equação matemática. Ele tem que estar bem definido para que chegue ao resultado que é o som. Para escrever música você tem que colocar letras e números. É algo que eu acredito bem lá do fundo”.

Fotografias: John Nascimento

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