Música & Música

Caros amigos:

Laurence Bittencourt, em diálogo de alto nível com Jairo Lima {Post “O Poeta e Eu”}, salienta a excelência da chamada Música Erudita, em comparação com a banalidade da chamada Música Popular (o gênero mais citado da última foi o rock).

Nos termos em que Laurence colocou a questão, ele está coberto de razão. Quero lembrar, todavia:

1) A Música dita Popular, como Laurence está cansado de saber, não é apenas rock. Existem bossa nova, cumbia, baladas, baiões, cançonetas, lied e tantos outros gêneros mais.
2) A Música dita Popular obedece a regras de duração, audição e reprodução muito diferentes da Música dita Erudita (frequentemente não segue leitura de pauta, valoriza variações e improvisos).
3) Boa parte da Música dita Popular se configura como canção, incluindo parte textual significativa para atingir seus resultados.
4) Assim como as letras das canções não são necessariamente Poesia (muitas delas são Crônicas, Contos, Reportagens), sua parte estritamente sonora não é necessariamente Música (muitas delas são pregões, Literatura Oral, Falas).

Penso que é melhor evitar comparações competitivas do tipo: quem sabe mais, Ludwig Van Beethoven ou Cole Porter?
É possível que a Música dita Popular esteja mais próxima de uma atividade como o Jornalismo (ligação com o momento, necessidade de substituição) do que da Literatura clássica (cânones, vanguardas). Ninguém suporá que basta ler Dostoievski e jamais abrir um jornal: os dois campos textuais, tão diferentes entre si, continuam fundamentais.

Gosto muito de ouvir Noel Rosa, Tom Jobim, George Gershwin, Dorival Caymmi. É um prazer diferente daquele que se experimenta quando se ouve Claude Debussy, Georges Bizet, Gustav Mahler. O prazer de ler Guimarães Rosa não nos dispensa do prazer de ler Rubem Braga. E identifico possibilidades de razão e sensibilidade física em todos esses campos.

Cãmara Cascudo nos permite pensar numa erudição popular, que inclui a presença de tradições clássicas em diferentes públicos, via oralidade. Carlo Ginzburg, relendo Mikhail Bakhtin, sugere uma circularidade de culturas, ao invés de reforçar a polaridade Erudito/Popular.

Priorizo verificarmos se diferentes músicas evidenciam Poéticas (diferentes da Mimese) e se constituem em Arte – o campo do possível. Nesse sentido, o problema efetivo não é escolher entre Fréderic Chopin e Ernesto Nazareth mas constatar que o mundo do espírito ficaria empobrecido sem um dos dois.

Em tempo: concordo plenamente com Laurence sobre a necessidade de colocarmos as sonoridades ditas Eruditas ao alcance de todos. Por que não garantir isso no ensino elementar e básico?

Abraços (ao som de Stravinski e Jorge Ben Jor):

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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