Música, poesia e política em noite memorável na Ribeira

Fotos: Indica Natal/Facebook de Marinna

Chico César chegou ao palco sob gritos de “Não vai ter golpe”. Era quase meia noite e três bandas, Rastafeeling, Marinna & Faya Soul e Rosa de Pedra, já haviam se apresentado no Festival Música e Paz, sábado na rua Chile. O público foi aumentando à medida que a hora passava. Rastafelling acabou penalizada porque foi a primeira a fazer seu show, quando o público ainda era pequeno.

O mesmo ocorreu com Júlio Lima & Banda, que se apresentou depois de Chico César, por volta de 01h30. Muita gente foi embora. Não pelo cantor e compositor, um dos melhores do RN, mais pelo cansaço e o avançado da hora (durmo com as galinhas, metaforicamente falando – rs). Não agüentei, fiquei todo o tempo em pé e a coluna estava incomodando-me.

Mas eu gostaria mesmo de ter ficado porque gosto demais do som de Júlio. Ainda ouvi a primeira música, mas fui embora. Gostei das apresentações de Rastafeeling e Rosa de Pedra. Achei o som de Marinna & Faya Soul sem identidade, com um repertório eclético demais, não me agradou.

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O cantor e compositor paraibano é um velho conhecido nosso. Esteve em uma das edições do lendário Festival do Forte, na década de 1980 e fez amigos aqui, como o poeta Carlos Gurgel, o artista plástico Novenil, o ativista Aluizio Matias, o cantor e compositor Babal, o produtor José Dias, entre outros.

Eu estive numa das edições do festival, mas não lembro dele dessa época.  Minha lembrança é da década seguinte, quando ele se apresentou no Projeto Seis e Meia, no Teatro Alberto Maranhão. Havia estourado nas paradas depois de uma aparição no Faustão. Um pouco antes tinha feito show no famoso Bar do Buraco, em Ponta Negra, para um público em torno de dez pessoas. O produtor do Seis e Meia, da Fundação José Augusto, José Dias, fez uma aposta arriscada e conseguiu lotar o Alberto Maranhão. Foi um show arrasador.

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O show de sábado na Ribeira também foi excelente. Dançante, poético e político em doses certas. As primeiras cinco ou seis músicas foram do novo álbum “Estado de Poesia”, depois ele passeou por seus sucessos mais conhecidos, atacou de “Pra não dizer que não falei das flores”, de Vandré, misturada com “Mama África”, Trio Nordestino, Lênine e Flávio José e ainda cantou uma parte do Hino à Bandeira Nacional, numa atitude claramente politizada.
Leu um poema de sua autoria intitulado “O Amor é Revolucionário” e cantou uma longa música, mas para carta musicada, com críticas duras ao agronegócio, à destruição do meio ambiente.

Também referiu-se à quadrilha legislativa que votou pelo impeachment. Foi a única vez durante o show em que ele falou sobre a crise mais diretamente. Embora em vários momentos a plateia tenha gritado “não vai ter golpe”. Coube ao percussionista Escurinho, amigo de longa data dele (fizeram parte do grupo paraibano de vanguarda “Jaguaribe Carne”, criado por Pedro Osmar e Paulo Ró), responder à plateia: “não vai ter golpe, vai ter luta”.

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Foi uma noite memorável. Pelo preço, R$ 40,00 (mais um quilo de alimento, que foi o que paguei), e pelas atrações eu achava que não conseguiria mais ingresso na bilheteria. Na verdade, lotou, mas eu pensei que iria faltar chão, por isso cheguei mais cedo. Nem precisava porque ocorreu um atraso de bem uma hora, essa a única falha do festival, que teve também uma passagem engraçada. Sem quê e nem pra quê a cantora Marinna disse a certa altura da sua apresentação que seu vestido vermelho não tinha nada a ver. Na hora, traumatizado ainda com derrota do América, achei que sua frase referia-se ao jogo contra o ABC, sei lá algum torcedor perto do palco poderia ter feito alguma provocação, algo nesse sentido. Só hoje, segunda-feira, conversando com uma amiga que também estava no show foi que a ficha caiu, a referência, tudo indica, era ao PT. Mas, pelo menos aparentemente, continuou não fazendo sentido a observação extemporânea.

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Comments

There is 1 comment for this article
  1. Aldo Lopes de Araújo 9 de Maio de 2016 22:34

    Amigo Tácito, saber que Chico César e Escurinho se apresentaram na Ribeira e eu não pude estar lá porque estava num plantão noturno foi realmente phoda.
    Faz anos que não vejo essas figuras que há vinte anos agitavam a cena cultural do Departamento de Artes e Comunicação da UFPB, caldeirão que
    ajudou a mostrar os caminhos da arte, da música e da literatura a muitos paraibanos que hoje se destacam no cenário nacional. Quantas saudades sinto de Magalhães, Fransued, Zé Duarte, Wellinton Pereira, Hildeberto, e das greves da universiadade, sobretudo daquelas que Chico César tomava a frente, e do Movimento dos Escritores Independentes, do qual o próprio Chico fazia parte e consistia em declamar na rua poemas irreverentes, fesceninos, revolucionários, e acima de tudo maravilhosos. Bons tempos aqueles.

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