Música popular também tem Luzz


A história de Waldir Nascimento de Souza é a mesma de outros artistas talentosos residentes neste cemitério musical chamado Rio Grande do Norte. Alguém aí conhece Waldir Luzz? A Elba Ramalho sabe quem é. A classificação geralmente atribuída ao compositor-intérprete é a de artista popular, já cercada de estigma e preconceito. Waldir Luzz está há mais de 30 anos na estrada. Corrigindo: está há 30 anos entre bares e palcos natalenses. A estrada propriamente dita foi percorrida pouquíssimas vezes, em rondas de aventura no Sudeste do sucesso distante.

Waldir Luzz é natalense da gema, ou do bagaço do caju mais genuíno e doce. Conta 42 anos. É filho de peixe-cantador de banda de baile, João Paulino, e peixinho, seguiu o pai no ofício. A casa no Bairro Nordeste vivia recheada de músicos. Cada nota musical tocada naquele ambiente grudava no ouvido como perfume na pele. Ainda menino assistia em sua sala João de Orestes, integrantes de bandas como Terríveis, Impacto Cinco, Apaches, Impossíveis, Os Íngaros e outros. O Bairro Nordeste foi celeiro de músicos nos anos 70.

A escola musical transportou Waldir Luzz aos palcos da vida noturna. Sem muita alternativa. Aos 16 anos já cantava com o pai. A versatilidade no exercício de vários estilos musicais das bandas de baile foram repassadas ao jovem. Dez anos depois, aos 26 anos, Waldir Luzz cantava na noite. E cantava de tudo. A Praia dos Artistas era o novo celeiro de cantores natalenses. A Escotilha, o Calamar, os hotéis da então recente Via Costeira (ainda hoje) eram os espaços mais frequentados pelos músicos. E lá estavam Pedrinho Mendes, Sueldo Soaress e o jovem Waldir Luzz a procura de uma brecha.

Passados quase 30 anos, Waldir Luzz, Pedrinho Mendes, Sueldo Soaress e outros nomes da época continuam dentro das muralhas de Natal e a procura de espaços para mostrarem suas músicas. “Ninguém faz sucesso em Natal. O artista começa a tocar em bares, festivais e permanece nesse ciclo, rodando os mesmos lugares e projetos culturais até o fim”, lamenta. Durante mais de 20 anos, Waldir Luzz integrou a Banda Pôr-do-Sol, contemporânea a Banda Feras, Circuito Musical, Fobos e outras que se dividam entre a Assem, Aeroclube, América, Quintas Club e Casa da Música, nas já distantes décadas de 80 e 90.

As amigas Cida Airam e Rejane Luna procuraram outros ares, em Curitiba e Rio de Janeiro, respectivamente. “Elas me estimulam a sair daqui. Dizem que lá tem mais espaço para o artista. Mas já fui a São Paulo. Lá o artista vira escravo da noite. Dificilmente faz sucesso, apesar dos espaços”. E artistas como Lenine despontaram como? Waldir Luzz abre excessões. Segundo ele, o artista pode despontar como compositor na voz de algum intérprete famoso. “Muitos famosos gravam músicas de compositores desconhecidos. Aí quando caem na boca do povo, o compositor aparece. É o caso de Lenine, Chico César e outros”.

Shows

Waldir Luzz se apresenta mais em festas particulares ou nos fins de semana no Hotel Escola Barreira Roxa. Participa de festivais eventualmente, como o Forraço. Há um ano tenta gravar o terceiro Cd. O novo trabalho terá 90% de músicas autorais. As outras são releituras de composições de Babal, Magnus Araújo, Elino Julião e outros. Serão 12 faixas. Oito já foram gravadas, de forma independente. “Passamos um mês para gravar uma música. Tem que ser aos poucos porque é independente. Iremos atrás de patrocínio pelo menos para a capa e a confecção do Cd. Estamos tentando a participação de Elba Ramalho. Da última vez ela prometeu que no próximo Cd ela participaria”.

A associação do trabalho de Waldir Luzz com o xote e o baião ainda é muito forte. E muito se deve à admiração do compositor com o trabalho de Elba Ramalho. “Já assisti a 66 shows dela. Quando vem a Natal e concede entrevistas, às vezes ela cita meu nome”. E assim Waldir Luzz é lembrado. Quando toca na noite natalense, insere suas composições sem identificar a autoria. “É uma maneira de o público aceitar sem reclamar. Pensam que é de alguém famoso. Só digo que é minha se perguntarem”.

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

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