Mutantes, Eichmann, Arendt, Henfil

Confira a sequência dessa história com o baixim aqui

Amigos e amigas:

O Uol noticiou espetáculo dos Mutantes em Festival de Itu, SP, hoje (sábado, 9 de outubro). Numa passagem, assinalando as ironias políticas proferidas por Sérgio Dias (único remanescente da formação original do grupo), lê-se: Em “El Justiciero”, chamou a candidata à presidência Dilma Rousseff de defensora dos “puebres” e, mais adiante, pediu: “besame mucho, Lulacito”.
De que se ri? Dos pobres e de quem, supostamente, fala em nome deles.
Lembrei de uma passagem de Hannah Arendt, no excelente livro “Eichmann em Jerusalém”. A autora lembra que, no início do século XX, alguns intelectuais judeus refutavam racionalmente os argumentos racistas na Alemanha e não conseguiam nenhum resultado positivo junto à opinião pública. Conclusão de Arendt: ficava evidente que o racismo correspondia a ódio puro e simples, dispensava argumentos racionais pró ou contra.
Os Mutantes, no final dos anos 60 do século passado, foram um grupo musical muito bom. Lembro de uma letra de seu primeiro álbum que terminava dizendo: “E no mar me atirei / com o relógio nas mãos e pensei / Ele é à prova d’ água / 22 rubis”.
Chegar a esse nível atual de piada é o que há de tristeza. Pobre não é sagrado, pode-se rir de pobre, sim – e de rico também, o que Serginho não faz. Mas há níveis de riso. Aquele é de preconceito puro e simples: pobre é ridículo (e errado: puebre) por ser pobre e só. É como judeu ser ridículo por ser judeu, palestino ser ridículo por ser palestino, nordestino ser ridículo por ser nordestino, sulista ser ridículo por ser sulista…
Lembrei também de uma aventura do Baixim, de Henfil: ele aderia ao Esquadrão da Morte, deixava os veteranos do grupo fascinados com seu requinte sádico e propunha: “Vamos matar um bandido bem rico”. No quadrinho seguinte, ele aparecia morto pensando: “Onde é que eu errei?”.
Lamento muito pelos Mutantes.
Abraços:

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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