Na atual conjuntura, viver é um ato político

 Mas é preciso ter força

É preciso ter raça

É preciso ter gana sempre

Milton Nascimento

O fim de ano se aproxima, e este 2020 foi bem intenso para a maioria das pessoas, inclusive para mim. Logo que começou a pandemia por aqui, fui acometida por uma tristeza profunda, pois sabia que os mais afetados seriam aqueles e aquelas que estavam às margens sociais, fatalmente a população pobre e negra. Fique em casa! Muito se pedia, mas eu me indagava: e quem não tem casa? Era assustador pensar isso e nas proporções que esse vírus tomaria. Algo desconhecido desde então.

Para piorar ainda mais, o nosso país está sendo liderado por um cara que pratica despudoradamente a necropolítica. “É só uma gripezinha”, “E daí?” , “Eu não sou coveiro”, essas são apenas algumas das atrocidades proferidas pelo presidente da república. Veja bem, pessoas morrendo a todo instante vítimas do COVID-19, a economia do país indo de ladeira abaixo, nossos direitos sendo usurpados na calada da noite, a floresta e os povos indígenas sendo acatados, pessoas ceifando suas próprias vidas por não aguentar tamanho desalento. Como lidar com todo esse caos? Essa indagação era tão torturante quanto a de outrora.

Por ironia do destino, todo caos e tristeza que me atormentavam, se transformaram depois que contraí o vírus, foram quinze dias com sintomas, com dificuldades para respirar, de forma leve, mas o suficiente para perceber a glória que é respirar normalmente, perdi 100% do paladar e olfato, algo que pra mim foi desesperador, isso entre dores por todo corpo e febre.

Mas foi durante esse momento de enfermidade que me surgiu a seguinte afirmativa: permanecer viva/o na atual conjuntura, é um ato político. Lutar pela própria vida é resistir dentro da necropolítica. Sabe aquela frase, “eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de viver”? Foi justamente isso que me ascendeu novamente, a necessidade e a vontade de viver.

Por tanto, no meu último artigo deste ano de 2020, quero dizer a você caro leitor e a você cara leitora: Viva! Busque meios de se salvar. Pois mesmo dentro de tantas tristezas, de tantas injustiças, viver vale apena, nem que seja para se opor a tudo isso que está posto. Ame! Não tenha medo de amar. Acredite, o amor é revolucionário.

Por falar em acreditar. Sonhe! Pois não há nada tão nosso quanto os sonhos. E por fim. Perdoe! Estamos todos numa confusa caminhada. Mas principalmente exercite o perdão consigo mesmo. Não há nada melhor para seguir adiante.

Encerro cantando o divino Milton Nascimento: Mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre… Até o próximo ano!   

Artista, poeta, jornalista, militante do movimento negro [ Ver todos os artigos ]

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