Na casa de Radir

Aluizio Alves em passeata em Areia Branca (fonte)

Por François Silvestre
NO NOVO JORNAL

Campanha de 78, ano do acordão dos Alves com os Maia. Aluízio Alves e Tarcísio Maia morreram e nunca explicaram convincentemente esse acordo. Nem depois do rompimento e do ódio mútuo que passaram a dedicar um ao outro.

Ficou a versão da oposição autêntica. Sob a liderança de Odilon Ribeiro Coutinho e Roberto Furtado. Um negócio feio, de muitos dólares repassados de uma multinacional, Dow Chemical, a uma empresa “nacional”, UEB, que tinha no “comando” o general Albuquerque Lima e Aluízio Alves numa das diretorias. O lado político também não muito cheiroso, de onde o miasma exalava as influências de Golbery do Couto e Silva acolitado por Tarcísio Maia. Mas essa é outra história, para outro momento.

Campanha para o Senado. O compromisso do acordão era o MDB não ter candidato e apoiar o candidato da Ditadura.

Após muita confusão, garantiu-se a candidatura de Radir. A jogada do MDB aderente, sob o comando de Henrique Alves, era indicar três candidatos ao Senado; Chico Rocha, Olavo Montenegro e Paulo Barbalho. Candidaturas desertas, o partido apoiaria Jessé Freire. Com a saída de Odilon, a oposição emplacou Radir no lugar de Barbalho. Olavo cumpriu a ordem de Aluízio e renunciou. Chico Rocha empolgou-se com a convenção e manteve-se candidato, para desgosto dos Alves.

Fomos comemorar na casa de Radir. Feirão de gente que lotou o casarão do candidato.

Lá pras tantas, chega o ex-governador Cortez Pereira. Dona Alda o coloca na mesa onde estávamos Odilon Ribeiro Coutinho e eu. Conversa amigável, no início.

Alguém fala da Ditadura. E sai minha prisão no Governo Cortez. Eu nunca o culpei. No período Médici, governador não tinha força pra prender nem prestígio pra soltar. Continuamos amigos. Meu ex-professor.

Num certo momento, Cortez me interpela: “Fomos punidos pelo mesmo regime”. Em vez de ficar calado, respondi: “Regime que eu combati e ao qual você serviu de forma torpe”. Cortez me olhou irritado: “Em homenagem aos seus cabelos longos, vou relevar suas ideias curtas”. Tentei remendar. “Pois eu retiro o torpe”. Antes de Cortez aceitar as desculpas, Odilon interveio: “Não retire nada. Ele entrou pela porta dos fundos do Palácio”. Cortez vira-se pra Odilon e rebate: “Entrei pela porta dos fundos e abri as portas da frente para empresários malsucedidos como você”. Odilon: “Eu pensei que você fosse mais inteligente”. Cortez: “E eu pensei que você fosse menos mau”.

Tumulto. Dona Alda, mulher de Radir e cunhada de Cortez, nos separa. Cada um num lugar diferente.

De madrugada, juntos de novo. Área dos fundos da casa. Literatura e filosofia em vez de política. Amanhecemos o dia, sob a vigilância de Roberto Varela, Júnior Targino e Rubens Lemos. Té mais.

Comentários

Há 8 comentários para esta postagem
  1. Carlos de Souza 18 de abril de 2011 10:18

    em tempo: esse lugar aí é o ivipanim clube.

  2. Carlos de Souza 18 de abril de 2011 10:17

    vejam, as mulheres já andavam com barriguinha de fora na velha areia branca!

  3. Tácito Costa 17 de abril de 2011 15:49

    DE EVA BARROS, POR E-MAIL:

    Sua peça tirada do fundo do baú tocou profundamente sentimentos há muito não manifestos quando encaro o mundo da política.

    Que saudade daquele tempo de homens públicos assumidos em suas verdades, sejam elas quais, quando eram maiores que o marketing.
    Uma bela história que ensina, que serve a muitas desmistificações

    Obrigada pelas emoções revividas.
    Eva Barros

  4. Laura_Diz 17 de abril de 2011 10:59

    É… a literatura aparta brigas e nos aproxima.
    Delícia seu texto, o Mario Ivo colocou no Twitter.
    Valeu vir aqui.
    Abs, Laura

  5. françois silvestre 17 de abril de 2011 9:45

    Puta que pariu, Livio. Se não bastasse o poema do gato, que emocionou Jairo, agora você me salva esse Domingo desinvernado de Martins. Abração!.

  6. Alex de Souza 17 de abril de 2011 9:11

    será que carlão consegue identificar algum dos locais nessa foto?

  7. Lívio Oliveira 17 de abril de 2011 8:04

    Só mais uma coisa, caro François: essa foto sapeca de Aluízio Alves que encima o seu texto é outra coisa deliciosa desse post. Mostra outra faceta por demais conhecida do velho e saudoso cacique (sei que o Marechal Porpa não nos deixará mentir). [rs]

    Mais abraço.

  8. Lívio Oliveira 17 de abril de 2011 8:00

    Prezado François, quero lhe afirmar ter me deliciado com o seu texto deste final de semana. Você consegue – através dele – falar com leveza, humor e até uma certa dose de saudosismo, de um assunto áspero, árido e difícil, que é a política. Ainda mais, quando se sabe que o nosso momento político local não é lá dos melhores. E não é, mesmo!!!

    E pegou para colar no seu texto um momento histórico ainda rico de homens (mesmo que com naturezas e práticas eventualmente controversas) que se esforçavam por fazer Política (isso mesmo, com “P” maiúsculo) no nosso Estado. E que construíram boa parte deste RN combalido.

    Além do mais, fico imaginando a riqueza de uma longa conversa à beira da boa mesa em que se contava com exímios operadores da palavra oral, hábeis oradores, do quilate de um Odilon Ribeiro Coutinho, de um Cortez Pereira, além de você próprio (sobre quem a fama de grande orador se depositou há muito).

    Aluízio Alves, todos o sabemos, também foi um grande e eletrizante orador. Assim como o são Geraldo Melo, José Agripino e o meu amigo Juliano Siqueira (a quem ajudei a se eleger vereador em Natal).

    Pena que você e Juliano estejam fora da política, ao menos nesse momento, uma vez que o grande debate das ideias passa também pela forma como elas são expressas.

    Para concluir, François, esse meu “arremessar de confetes”, pergunto a você: o tempo dos grandes oradores acabou?

    Um abraço e, mais uma vez, parabéns pelo texto (uma das boas coisas que temos por aqui no SPlural).

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