Na terra de Humberto Mauro

Por Luiz Ruffato
NA FSP

NASCI EM CATAGUASES, interior de Minas Gerais, onde volto pelo menos uma vez por ano para rever minha irmã e a família dela, únicos parentes na cidade, já que a maioria dos Ruffato, originários de uma antiga colônia italiana chamada Rodeiro, encontra-se radicada em Ubá (MG).

No começo de agosto deste ano, no entanto, lá estive por um motivo diferente: participar do 2º Festival Ver e Fazer Cinema, que reuniu estudantes de cinco países (Brasil, Portugal, Angola, Moçambique e Cabo Verde) para a realização de sete curtas-metragens (cinco documentários e duas narrativas de ficção), tutorados por nomes como Maurice Capovilla, Luiz Carlos Lacerda (Bigode), Emilio Gallo, Joel Pizzini, Gustavo Jardim e Guilherme Fiúza.

Durante o evento, demo-nos conta de que o Cine-Teatro Edgard, um dos vários monumentos modernistas da cidade, inaugurado em 1953, com projeto de Aldary Toledo e Carlos Leão, embora tombado pelo patrimônio público nacional, está caindo aos pedaços. E ali mesmo iniciou-se um movimento pela recuperação do edifício, um marco simbólico de uma cidade que se orgulha de ter sido o berço do cinema brasileiro, projetada que foi pelos filmes de Humberto Mauro – FOTO (1897-1983) e seu Ciclo de Cataguases, ainda na década de 1920.

No entanto, muito além de prédio modernista ou símbolo cultural, o Cine-Teatro Edgard é, para mim, a manifestação viva de um terrível e mortal pecado, a inveja.

Invejava o seu Sebastião, xará do meu pai, que, com seu carrinho estrategicamente posicionado na esquina da praça Rui Barbosa, perfumava as noites de sexta-feira, sábado e domingo com o olor de sua pipoca quentinha e saborosa, atiçando os frequentadores que lotavam as filas para comprar ingresso no Cine-Teatro Edgard…

Enquanto isso, a outra praça, a da Igreja (hoje Santuário) de Santa Rita de Cássia, ficava às moscas, e nem mesmo a colorida fonte luminosa ajudava-nos, eu e meu pai, a vender a nossa pipoca tão ou mais gostosa e cheirosa que a do concorrente. Terminada a missa, todos saíam apressados para o footing na praça vizinha…

Inveja também dos garotos que, levados pelas mãos dos pais, assistiam aos filmes nas matinês de domingo, orgulhosos de sua roupa domingueira, de seu sorvete, algodão-doce ou pacote de bala de goma. Invejava, ao mesmo tempo, os meninos mais velhos, que, ainda que de calças curtas, conseguiam entrar nos filmes “proibidos para menores de 14 anos”, saindo de lá sérios, como quem viajou pelo mundo e viu coisas…

Invejava os que sorrateiramente ocupavam, nas tardes de sábado e domingo, a calçada ao lado do cinema com pilhas de revistas. Eu não tinha dinheiro para as matinês, nem idade para os filmes “proibidos para menores de 14 anos” e nem revistas para trocar…

No entanto, um dia, já trabalhando como caixeiro de botequim, separei uns trocados para enfim conhecer o Cine-Teatro Edgard por dentro. Era uma quarta-feira, de ingresso mais barato, e eu matava aula. Aguardei ansioso abrirem as portas, vigiando o movimento a partir de um banco próximo: evitava ser o primeiro. Afinal, passei pelo bilheteiro e me vi no hall, namorando com fingimento a vitrine de balas.

Adiava o momento em que teria que ultrapassar a enorme cortina vermelha -as mãos e os pés suando por não saber com o que iria me deparar. No momento exato em que pisei o tapete vermelho que conduziria meus pés à sala de projeção, as luzes se apagaram, alguém esbarrou em mim, e tateando busquei na escuridão um lugar em meio a dezenas de poltronas vazias. E compreendi pela primeira vez a solidão a que irremediavelmente estava condenado.

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