Na TV, negro vive no país das maravilhas

Por Mauricio Stycer

Trama das nove da Globo ignora questão racial com personagem mulherengo e bem-sucedido de Lázaro Ramos

André Gurgel, um dos protagonistas de “Insensato Coração”, é um designer famoso. Bem-sucedido, é a principal estrela de um escritório de design e sofre assédio para prestar seus serviços para uma concorrente.

Premiado e paparicado, é objeto da curiosidade da imprensa, aparece em capas de revistas e cultiva a fama de mulherengo.

Em um único capítulo da novela, sem fazer esforço, apenas exalando seu charme, André Gurgel foi capaz de conquistar três mulheres.

Já levou uma mulher para a cama de seu apartamento, por insistência dela, e a dispensou depois do sexo sem deixar que ela dissesse qual era seu nome.

Até agora, todas que cruzaram seu caminho, fossem clientes, repórteres, colegas de academia ou paqueras da balada, quiseram transar com ele.

Para conquistar a única mulher que resiste um pouco a ele, Carol (Camila Pitanga), contratou os serviços de um iate e a levou para passear em alto-mar.

Ao final do encontro, por conta de um acidente, foi a uma delegacia onde a irmã de Carol estava detida. Exigiu que um policial avisasse o delegado da sua presença e, isso feito, conseguiu que a garota fosse liberada.

Em pelo menos dois capítulos, André foi visto nu tomando banho. A primeira vez, depois do passeio de iate e da carteirada na delegacia.

Enquanto Carol se banhava para dormir, em casa, André tomava uma chuveirada antes de ir para a balada conquistar mais uma mulher.

Na segunda vez, o banho ocorreu depois de dispensar uma moça e antes de sair com outra, que o aguardava.

Não bastassem todas as suas qualidades e talentos, ele ainda é negro. Vivido por Lázaro Ramos, o personagem não sofre qualquer preconceito ou discriminação por conta disso. Passados 15 capítulos, não houve uma única cena, um único personagem que mencionasse a questão racial na trama.

André Gurgel, em resumo, é um fenômeno. Mais do que viver num país em que não há racismo, transita pelas mais altas esferas como se fosse invisível. Como em “A Roupa Nova do Rei”, não há ninguém ao redor do personagem com coragem de dizer que ele é negro.

Gilberto Braga e Ricardo Linhares usaram esse mesmo artifício com o casal gay de “Paraíso Tropical” (2007).

Como observou o colega Alcides Nogueira, “podia ser tanto um casal de gays quanto um casal de símios, porque não era nada”.

Ao tratarem como natural o que não é natural, os autores podem até ter a intenção de transmitir uma mensagem de cunho educativo: “Assim é que deveria ser, assim é que os negros deveriam ser vistos, assim é que os gays deveriam ser tratados”.

Como na fábula de Hans Christian Andersen, porém, correm o risco de ser confrontados por alguma criança capaz de enxergar que “Insensato Coração” se passa no país das maravilhas.

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