“Nada” – conto curto

Nada. Nenhum sinal de que recuaria da decisão. Algo diferente lhe vinha à cabeça todas as vezes em que se falava do assunto. Só não se sabia o que era. Apenas, que era algo de estranho e paralisante. Algo que possuía uma força inexplicável e lancinante. Assim, ele se pôs a dar continuidade a um projeto meio que bizarro e do qual todos discordavam: o de vender a fazendola e ir morar na cidade.

O que o movia? Alguns diziam que queria reatar um casamento malfadado de muito tempo atrás. Outros afirmavam, peremptoriamente, que havia herdado pequena fortuna de uma tia velha. Na verdade, havia (por enquanto?) muita fumaça e um fogo minguado. A dúvida permanecia e incomodava.

Terminou levando a cabo o seu intento. Foi morar na cidade, nos arrabaldes, à beira de uma estrada mais próxima. O lugar era tão estranho que nem os cães vira-latas visitavam. Davam sempre marcha à ré, com a cauda por entre as magras pernas traseiras. Mas, ali foi ficando, meio sem sentido, aguardando o dia nascer e morrer, num moto-contínuo entediante e sombrio.

A dúvida de todos permanecia. Um dia, um velho carteiro lhe trouxe uma encomenda. Uma estranha encomenda. Era uma caixa de média altura e bem estreita. Parecia que continha um…um cano? Não era um cano, mas uma luneta. Uma surrada luneta em bronze e que havia pertencido a um de seus longínquos ancestrais, alvissareiro de uma caravela portuguesa. Mas, como aquilo veio lhe chegar às mãos? Por quanto tempo esteve rondando no mundo? Verificou que a embalagem não continha o nome do remetente.

Não ficou a se perguntar por muito tempo. Foi até a janela da sala. Já escurecia. Pôs-se a mirar uma baixa colina que ficava a uns dois quilômetros da casa, afastando-se da rodovia à beira da qual a grande casa se situava.

Arrepiante era a visão! Via, no alto da colina, a si mesmo. Porém, via-se enforcado numa árvore ao lado do casarão incendiado. O que seria aquela visão? Enlouquecera? Parou, imediatamente, e enfiou aquele objeto diabólico num baú cheio de mofo e de papeis amarelados. Trancou-o com um grande cadeado.

Não conseguiu dormir durante toda a noite. Não conseguiu mais dormir durante todas as noites. Cerca de quarenta dias depois desse estranho acontecimento, o carteiro barbado e alquebrado retornava à casa solitária. Trazia, dessa feita, uma nova encomenda. E tinha remetente e destinatário.

Não pode o carteiro entregar o volume ao segundo. Apavorou-se (e voltou correndo para a estrada, assim como os vira-latas) quando vislumbrou aquele apavorante cadáver pendente na árvore. E a casa não tinha mais número. Não era mais destino de carta, mensagem, ou encomenda alguma. Somente as cinzas e um resto de chamas acesas restaram do cruel incêndio.

O remetente? Nunca se soube. O carteiro amedrontado largara a encomenda sobre as brasas.

E as palavras? Todas consumidas.

(em homenagem a H.P.Lovecraft)

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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