Não alimente os macacos

Por Viegas Fernandes da Costa

Tem esse velhinho, que todos os dias vejo parado diante daquela estante esquecida, de pé, folheando as páginas de uma antiquada Delta Larousse. Vejo-o pelo vidro do aquário onde trabalho.

O aquário em questão – explique-se – é uma dessas horrendas repartições que inventaram para isolar funcionário – eu – e os usuários da biblioteca. “Não alimente os macacos” – sugeri certa vez que escrevessem em uma das faces do vidro, para que todos soubessem que uma biblioteca pode também parecer um zoológico. E é, claro que é. Não só a biblioteca, mas toda a Universidade do qual esta faz parte, um zoológico repleto de bichinhos, alguns exóticos, outros bastante comuns, enfim. “Não alimente os macacos”. De qualquer maneira, sou eu que observo e estranho. O velhinho – também não é assim tão velho, mas se trata de um senhor, claro que sim – continua ali, estranhamente continua ali, não cansa, de pé, às mãos o volume número 9 (HOR – MAR), edição de 1974. Intriga-me saber o que procura.

Da outra vez, depois de ido o velhinho e devolvido o volume à estante, dignei-me a abandonar provisoriamente o aquário e encontrar o volume número 9 da Delta Larousse, ainda quente das mãos que por tanto o seguraram. Estão um pouco descoladas e amarfanhadas as páginas 4053 a 4058, logo suponho serem estas o alvo da curiosidade do velhinho – que também não é assim tão velho. Há, na 4053, uma breve biografia do escultor grego Lisipo, nascido em 390 antes de Cristo e data de morte ignorada. As informações, claro, são da própria edição de 1974 da Delta Larousse. Não o sabia, mas Lisipo foi o retratista oficial de Alexandre, o Grande. Há, inclusive, foto da réplica da estátua “Hermes amarrando a sandália”, pertencente ao museu do Louvre. Hermes, claro, está nu, como se apetece estar na clássica estatuária grega. Já a página 4054 reúne de “Lispector, Clarice” – com direito à reprodução do retrato desta escritora pintado por Chirico – a “lissofobia” – o medo doentio de contrair raiva – , “lister” – um tipo de atadura impregnada pelo ácido fênico – , concluindo com “Listing (Johann Benedikt)” – o físico e geodista alemão, morto em 1882, autor de estudos sobre o vulcão Etna. 4056 e 4057 não têm figurinhas, mas uma boa porção de pequenos verbetes que vão de “literatura” a “litoral”, passando pelos estrambóticos “litergol”, “litisconsórcio”, “litoglifite”, “litomástix”, “litopalaxia” – que a enciclopédia muito reveladoramente explica tratar-se do mesmo que a litotripsia – , chegando no “litopônio”, verdadeiro palavrão, convenhamos, com uma sonoridade ímpar quando verbalizado. Diga aí, em alto e bom som: “sou mesmo um litopônio!”, e sorria o riso dos bobos.

Litopônio enche mesmo a boca e nos orgulha da capacidade do ser humano nominar absolutamente tudo o que existe, até mesmo a pigmentação branca formada de sulfato de bário e sulfeto de zinco (e vivas à Delta Larousse!). Até porque só não tem nome aquilo que não existe, afinal, antropocêntricos que somos, só existe aquilo que sabemos existir e, para que saibamos da existência de algo, este algo precisa ser batizado, não é mesmo? Bem, deixemos. Quero mesmo registrar que na página 4058 temos de “Litoral de Camocim e Acaraú” a “litro”, sim, o singelo litro, mas que tem direito à ilustração na margem esquerda da página: cinco exemplos de litros (de estanho para álcoois, de vidro para bebidas, de vidro para leite, de metal para leite e de madeira para cereais) – vejam vocês a que nível de minúcia chega a Delta Larousse, edição de 1974. Fantástico! Será que nosso velhinho – que também não é assim tão velho – interessava-se pelo litopônio? Ou procurava mesmo saber quem fora Li Tch’eng, que não citamos mas que também está lá, no meio da página 4055. Só mesmo uma enciclopédia é capaz de produzir um ordenamento tal. O volume número 9 (HOR – MAR), por exemplo, inicia com “Körner (Theodor)”, na página 3837, e conclui com “marte”, não o planeta, mas o elemento Ferro na alquimia, na página 4328. Entre Körner e Marte, uma galáxia de possibilidades!

Todo este exercício em torno do nosso velhinho – que também não é assim tão velho – porque este me devolve, cada vez que o vejo ali, medieval e disciplinadamente ereto empunhando a Delta Larousse, ao prazer que me proporcionava uma enciclopédia desde os primeiros tempos em que aprendi a ler, até o final da minha adolescência. Durante todos os meus anos de ensino fundamental, que cursei na escola Machado de Assis, meu sonho sempre foi poder ostentar na estante lá de casa uma rubra Barsa. Sim, pecaminosamente rubra, a Barsa servia-me de porta para a perdição, como os livros proibidos da biblioteca imaginada por Umberto Eco em “O nome da rosa”. Tudo era possível de se encontrar na Barsa, assim como suponho crer nosso velhinho – que também não é assim tão velho – na antiquada Delta Larousse, edição de 1974. A Barsa, entretanto, nunca a pude possuir como desejei, cara como era e pobres como sempre fomos. Não a podiam comprar, meus pais, e assim perdia-me em suas páginas nas edições antigas, disponíveis na biblioteca escolar. Digo mais, fazia parte do kit de sobrevivência escolar aprender, tão logo quanto possível, a consultar uma enciclopédia. Não havia tema para trabalho escolar que não se achasse nesses cartapácios que agora descansam esquecidos – salvo por nosso velhinho – nas estantes que abarcam meus olhos a partir deste aquário. Qual o jovem estudante que hoje sonha com uma prateleira repleta dos volumes sedutoramente rubros de uma Barsa?

Os tempos mudaram, mudaram depressa. Não estão piores, não estão melhores, apenas mudados. Hoje queremos ajudar a escrever a enciclopédia em bits e bytes e, se possível, incluirmos nossa biografia nela. Justo, muito justo! A mim, entretanto, fica o sabor de uma ausência. Uma enciclopédia com suas dezenas de volumes e milhares de páginas é todo um universo possível de ser abarcado por nossos olhos e mãos e, por força do acaso, lança-nos ao rosto a eloquência de um litopônio. Um universo real, palpável, tangível, que me presenteava com uma certa sensação de onisciência – falsa, é bem verdade, mas ainda assim poderosa – e me aproximava de Deus. A enciclopédia disciplinava o mundo, ainda que promovendo aproximações caóticas. Aproximações como estas, de um velhinho – que também não é assim tão velho – , uma enciclopédia,

* Viegas Fernandes da Costa é escritor e historiador.

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